sexta-feira, 8 de abril de 2016

Ativistas acusam governo de não discutir atualização de tratamento contra a aids. Governo responde que atual protocolo tem dado certo
A urgência na atualização do tratamento antirretroviral no Brasil tem tirado o sono de muitos ativistas da luta contra a aids. Segundo o professor e pesquisador Jorge Beloqui, do GIV (Grupo de Incentivo à Vida), desde 2013 o Consenso Terapêutico – formado por especialistas, gestores, sociedade civil e academia – não se reúne para discutir novas possibilidades de tratamento para a aids e a incorporação de drogas mais avançadas no leque de antirretrovirais oferecidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde). “A lei 9.313, de 1996, está sendo descumprida. Em seu artigo 1, parágrafo 2 diz que ‘a padronização de terapias deverá ser revista e republicada anualmente, ou sempre que se fizer necessário, para se adequar ao conhecimento científico atualizado e à disponibilidade de novos medicamentos no mercado’”,  argumenta Beloqui.
Ainda segundo Beloqui, a primeira linha de tratamento no Brasil, composta pelo 3 em 1: tenofovir (300 mg), lamivudina (300 mg) efavirenz (600 mg) e ofertada para todos os soropositivos no início de tratamento, não é a única, nem a melhor alternativa.  “Desde 2015, países como Estados Unidos e Espanha mudaram suas diretrizes terapêuticas e passaram a incluir os inibidores de integrase como primeira opção de tratamento. O último protocolo da Organização Mundial da Saúde também inclui inibidor de integrase como alternativa na primeira linha. Nos Estados Unidos, a primeira opção é composta pelo dolutegravir (inibidor de integrase), o abacavir (inibidor da transcriptase reversa) e a lamivudina (inibidor nucleosídeo da transcriptase reversa)”, continua Jorge. “Precisamos urgentemente revisar o nosso protocolo clínico. Pesquisas nos mostram que há menos falhas terapêuticas em tratamentos que incluem os inibidores de integrase.”
Hoje compõem a classe de inibidores de integrase o dolutegravir, o raltegravir e o elvitegravir. O raltegravir já é ofertado pelo SUS, o dolutegravir foi aprovado no ano passado, mas ainda não está disponível.
Sem referência
A falta de atualização no tratamento, na opinião do também professor Veriano Terto, da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), faz com que o Brasil se torne cada vez menos referência na luta contra a aids. “Sempre lutamos para que haja igualdade mundial no tratamento. Não há motivos para que eles (os outros países) tenham medicamentos melhores do que o nosso. A justificativa não pode ser o preço do remédio. Na história da aids, as drogas sempre foram caras mas, com boa vontade, negociação e o uso da lei de patentes é possível negociar preços e garantir o melhor tratamento para pessoas soropositivas. O que é oferecido nos Estados Unidos, na Dinamarca, na Espanha e em outros países é mais benigno para tratamento.”
Veriano diz ainda que a ABIA recebe muitas queixas de pessoas que usam o efavirenz, um dos remédios do 3 em 1. “O esquema com essa droga é antigo e apresenta muitos efeitos colaterais. Talvez essas reclamações não estejam chegando ao governo porque as pessoas desconhecem as ouvidorias dos hospitais, mas posso garantir que o número é crescente.”
O especialista em patente de medicamentos deixa claro que o movimento social não é contra o 3 em 1. “Esse é um esquema possível e tem dado certo em muitos casos, mas há opções melhores. Basta analisar os medicamentos para hepatite C. O tratamento já existia, mas surgiram outras drogas que garantem hoje a cura da doença, então, não podemos nos acomodar com o 3 em 1 e fingir que tudo está resolvido. Mesmo que o Brasil não mude sua primeira linha de tratamento é preciso informar os pacientes de que já existem outras opções”, finaliza Veriano.
Direitos humanos
Do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids), o ativista José Araújo Lima considera que a não atualização na grade de medicamentos é um desrespeito aos direitos humanos das pessoas com HIV/aids. “Está claro que a política do governo brasileiro é testar e testar. O tratamento está numa esfera secundária e inferior. As pessoas com HIV/aids precisam cada  vez mais de melhores tratamentos para terem a tão desejada qualidade de vida”, defende Araújo.
Assim como Beloqui, Araújo considera que o governo e o Departamento de Aids estão descumprindo a lei 9.313. “Não podemos aceitar pedaladas na saúde, não dá mais para viver na rabeira da ciência”, protesta Araújo.
Outro lado
O diretor do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Fábio Mesquita, garante que o governo não está descumprindo a lei. “A lei diz que a padronização de terapias deve ser revista anualmente ou sempre que se fizer necessário. E não foi necessário, por isso não houve atualização.”
Ainda segundo Mesquita, há outra emenda que garante que o Departamento vem cumprindo a lei – a  12.401, de 28 de abril de 2011, assinada pela presidenta Dilma Rousseff (leia aqui). “Essa lei diz que dentro do sistema de saúde é preciso criar protocolos clínicos, mas não estabelece datas para mudanças destes protocolos. Ou seja, o que fizemos em 2013 foi cumprir a lei.”
O diretor do Departamento conta ainda que já está marcada para maio a próxima reunião do consenso terapêutico e serão convidados todos os membros do comitê, inclusive o representante da sociedade civil. “Nosso protocolo clínico de diretrizes terapêuticas está em curso desde dezembro de 2013. A reunião do comitê antecedeu a esse protocolo, mas membros do comitê participaram de decisões posteriores, como, por exemplo, a que tratou do uso racional do CD4 (leia mais) e do protocolo de profilaxia pós-exposição do HIV (PEP).”
Mesquita informa que o objetivo da reunião em maio é fazer uma revisão do protocolo e discutir como será a incorporação do inibidor de integrasse dolutegravir (saiba mais) no SUS. “Na reunião da Cnaids [na terça-feira, 5] já começamos a discussão sobre a adoção do dolutegravir no Brasil. Falamos das limitações, que esbarram no preço, na dose fixa combinada e na não evidência científica da segurança para tratar gestantes ou coinfectados com tuberculose, que representam uma expressiva parcela dos pacientes brasileiros.”
Sobre a incorporação de inibidores de integrase em primeira linha de tratamento, Mesquita garante que isso ainda não é necessário, pois o 3 em 1 tem funcionado muito bem.  “A OMS recomendou o dolutegravir no último protocolo de 2015 como terceira opção da primeira linha, mas a recomendação diz que depende da condição financeira de cada país.”
O gestor considera complexa a comparação de linhas de tratamento para aids entre EUA e Brasil. “Lá, quem paga a conta são os seguros de saúde, aqui é o serviço público. Hoje, o custo de um tratamento com dolutegravir, por exemplo, equivale ao de 25 no esquema adotado no Brasil. Ou seja, se a gente colocasse o dolutegravir na primeira linha iria diminuir em 25 o número de novos tratamentos.”
Outra justificativa de Fábio Mesquita para a não incorporação dos inibidores de integrase em primeira linha é de que não existe composição dessas drogas com outros medicamentos, e o paciente passaria a tomar mais de três comprimidos por dia. “Isso dificulta a adesão ao tratamento. Atualmente, as nossas taxas de adesão e de supressão de carga viral são muito maiores do que as dos EUA. Além disso, o medicamento tem um preço proibitivo para se considerar para a primeira linha.”
Questionado sobre o que o governo brasileiro tem feito para negociar preços, Fábio disse que o país não está numa conjuntura política adequada para uma discussão sobre mudança na lei de patentes, por exemplo. “O que nos resta é uma negociação com a indústria farmacêutica e a gente tem feito e usado os recursos disponíveis.”

Um comentário:

  1. É absurdo a posição do Sr. Fábio Mesquita. É certo que sem os medicamentos ARV"s nos não teríamos sobrevida tão longa como apresentamos, no entanto não há de se negar que melhor seria com medicamentos que trouxessem além de vida longa, também qualidade a vida das Pessoas Vivendo com HIV/AIDS. A exemplo cito os efeitos do Efavirenz o qual uso há mais de 16 anos, e me trouxe o agravo da dislipidemia (Colesterol Alto) e em consequência disto diversos distúrbios cardiológicos e neurológicos, dentre eles diversos Infartos do Miocárdio e AVCI. Resultando hoje em perda da mobilidade e incapacidade total para desenvolver atividades físicas, sob risco de óbito. Digo isto não para aconselhar a qualquer um a deixar de usar este ou àquele medicamento, pois é certo que todos após longo período de uso irão causar alguma co-morbidade. Mas, acima de tudo para salientar que não temos apenas o DIREITO À VIDA, Mas sim VIDA COM QUALIDADE. Esdras R. Gurgel - PVHIV/AIDS à 26 anos.

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