sexta-feira, 15 de abril de 2016

Documentário sobre ativista trans Jacque estreia nesta sexta. Conheça a trajetória dela e veja entrevista com a diretora



Ativista, casada, mãe de dois filhos, professora de inglês, soropositiva e mulher trans. A história de Jacqueline Cortês virou documentário. “Meu Nome é Jacque” estreia nesta sexta-feira (15) às 20h30, no Cine Odeon, no Rio de Janeiro e 3 de maio (terça-feira) às 20h, no CineEspaço, em São Paulo.  
Jacque, como é chamada por todos, tem 56 anos e vive com HIV há 22. Para ela, receber o resultado positivo foi como uma sentença de morte. “O meu caso não foi diferente das outras pessoas que descobriam seu diagnóstico, naquela época”, conta. Recém-diagnosticada, ela buscou no ativismo ajuda para enfrentar a doença. Uma amiga sugeriu que procurasse o GIV (Grupo de Incentivo à Vida) e lá, além de receber acolhimento, ela deu os primeiros passos na militância de HIV/aids.
“Eu não queria ir até lá, porque eu não sabia se eu estaria viva nos próximos meses, mas minha mãe me deu muito apoio. Então, eu participei de um grupo de acolhimento e de ajuda mutua às pessoas vivendo com HIV. Conheci todo o tipo de gente e a diversidade humana se mostrava à minha frente. Todos me davam muito apoio.”
No GIV, ela fazia traduções de ensaios clínicos com novos medicamentos, participava das reuniões da ONG, mobilizações sociais e passeatas por políticas públicas para a aids. Depois, ajudou a fundar a RNP+ Brasil (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV) e foi descobrindo potenciais que não conhecia. “Eu tenho muito orgulho de falar que sou uma das fundadoras da RNP. Trabalhando pela rede eu descobri minha capacidade de oratória e minha veia ativista. Comecei a falar abertamente sobre minha sorologia e a dar entrevista mostrando o meu rosto. As pessoas davam entrevista de costas, por não querer mostrar que viviam com HIV, mas eu achava que a gente não tinha que se esconder”, lembra.
A virada
Foto à esqueda: Jacque com o marido e os filhos
Daí em diante, Jacque foi representante suplente da RNP no Brasil e na Redla (Rede Latino Americana de Pessoas Vivendo com HIV), onde começou seu trânsito de cooperação internacional. No Enclaids (Encontro Nacional de Travestis e Liberados que trabalhavam com DST/Aids), ainda na década de 90, Jacque conheceu várias travestis e transexuais. “Nesse momento, eu fui me encontrando como a mulher que sempre fui, com a especificidade de ser trans. Conheci várias transexuais e travestis que me deram muita força e aí, em 1998, eu fui procurar cirurgia.”
Empoderada e reconhecida na luta contra a aids, o preconceito e a homofobia, a favor dos direitos humanos e da diversidade, Jacque trabalhou em governos locais, estaduais e federal. Atuou em cooperação internacional e representação do governo brasileiro na ONU (Organização das Nações Unidas). “Imagine, eu sendo mulher trans, na chefia de uma área do governo federal. Só a minha presença em uma reunião externa já era um avanço, uma quebra de paradigma”, se orgulha Jacque.
Hoje, com dois filhos, um adolescente de 13 anos e uma menina de 7, ela dedica sua vida à família. Vivendo com o marido há 16 anos, faz questão de dizer que é casada no civil, pois considera essa condição uma importante conquista de sua vida.
 “Ao saber que tinha aids, eu não imaginava que viveria mais de 10 anos, faria minha readequação genital, casaria, teria filhos e partiria para o ativismo. Hoje, eu vivo com meu grande amor. Tenho os meus filhos que não são biológicos, mas eu sou a mãe deles. Tudo que eu aprendi e doei ao mundo com a minha militância é o que eu quero dar aos meus filhos. Essa, agora, é a minha causa maior”, afirma.
Os detalhes dessa história, os pontos mais importantes de sua trajetória, tudo o que passou nos bastidores e depoimentos de familiares e amigos fazem parte dos 80 minutos do documentário dirigido por Angela Zoé, que também escreveu o roteiro de “Betinho – Esperança Equilibrista” e dirigiu filmes publicitários sobre a violência contra a mulher.
Veja abaixo o que Angela conta sobre o filme:
Agência de Notícias da Aids: Como se deu as primeiras ideias de produzir um filme com a história da Jacque? 
Angela Zoé: Eu e a Jacque nos conhecemos trabalhando juntas em diversas campanhas sobre mulheres e direitos, pelo Unaids [Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids], realizadas pela Documenta Filmes, e ela era minha cliente. Nesse meio tempo, quatro anos atrás, em uma de nossas conversas ela mencionou que a vida dela daria um filme. Três anos depois, falando com Daniel de Souza, nosso captador, sobre possíveis projetos percebemos que estávamos em um bom momento para trazer à tona o debate LGBT. Foi aí que lembramos da Jacque. Fizemos uma reunião com ela, que nos contou sua história e ficamos encantados. Dali, ela saiu com uma tarefa de casa: escrever um resumo de sua vida e mandar para gente. Com isso, a ideia foi se firmando e fechamos o projeto.
O que te motivou a dirigir o filme? 
Eu entrei na direção porque tenho um histórico com filmes femininos ou de figuras femininas marcantes e senti que poderia ajudar a dar esse tom ao filme. Torná-lo uma história sobre quebra de barreiras e obstáculos, sim, mas, principalmente, uma história sobre uma grande mulher. E é o resultado que temos hoje.
Pra você, como é trabalhar com uma história como a da Jacque?
A vida da Jacque tem o tom único de ser uma história excepcional, mas ao mesmo tempo algo com qual todos podem se conectar. Acima de qualquer coisa, a Jacque é uma mãe, uma esposa, uma irmã, uma filha e foram esses aspectos que tentamos enfatizar na história. Poderia ser a história de qualquer um de nós. Mas, ao mesmo tempo, é uma história de elementos tão fantásticos que acaba por mostrar o quão incrível pode ser uma vida como outra qualquer. Além disso, nós tivemos um cuidado muito grande na hora de escolher como abordar os tópicos que tínhamos nas mãos. Conceitos, expressões, o que falar, como falar, todos os elementos foram estudados antes de serem colocadas em tela. A Jacque foi um grande apoio nisso, ela nos guiou na maneira como queria ter sua história contada e como fazê-lo da forma mais respeitosa.
No documentário, amigos e familiares dão depoimentos. Como está construída a narrativa do filme?
O filme conta com depoimentos riquíssimos: os quatros irmãos de Jacque, a médica infectologista, Sigrid Sousa, que acompanhou a trajetória dela por muitos anos; o ativista Paulo Giacomini, que trabalhou com a Jacque nos seus anos de militância; além da própria Jacque. A narrativa segue o esquema de "um dia na vida de Jacque"; começa com o café da manhã na casa dela e por aí seguimos sua rotina. Por entre seus acontecimentos diários revelamos pouco a pouco o que há de tão incrível sobre a vida dessa mulher e de sua família. As filmagens foram feitas em várias idas a Araruama, na casa de Jacque. Todos os presentes no filme usaram as mesmas roupas, cabelo, maquiagem que usam no dia-a-dia; sempre tentando manter as cenas condizentes com a realidade da rotina dela o máximo possível.
O que o público pode esperar desse trabalho?
Uma bela mensagem de superação, uma história fantástica, mas contada com toda delicadeza e força que são tão características de Jacque. Acho que as pessoas vão se surpreender, mas também aprender muito com esse filme.
O que você espera dessa história?
A história de Jacque é uma bela mensagem de tolerância e amor e eu espero que as pessoas vejam isso. Ela tem a capacidade de quebrar muitas barreiras sociais que nós vivemos hoje.

Serviço
Lançamento do filme: “Meu Nome é Jacque”
15 de abril às 20h30 -- Filme + debate com Jacqueline + festa
Cine Odeon (Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro), Rio de Janeiro - RJ
Ingressos: R$12 (meia) e R$24 (inteira) - venda na bilheteria do Cine Odeon e ingresso.com
Outras sessões:
Brasília – DF
Dia 25 de Abril às 18h
Casa da ONU, evento fechado 
Dia 26 de abril às 19h30
Sesc Presidente Dutra
Ingressos: sessão aberta - gratuito
São Paulo
Dia 3 de maio às 20h
CineEspaço - Rua Frei caneca, 569, Bela Vista
Ingressos: sessão aberta - gratuito (retirar os ingressos com uma hora de antecedência)
“Meu Nome é Jacque” é uma coprodução da Documenta Filmes, Globo Filmes e Globonews, com apoio institucional do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Unaids, da ONU Mulheres, apoio cultural Sesi-Senai/Firjan e patrocínio da Ancine. O filme estreia na Globonews no dia 7 de maio.


“Vale a pena você ser quem é e lutar por aquilo que te faz feliz. Vale a pena você perseguir os seus sonhos e, mais do que isso, a sua verdade. Eu sou um ser em busca eterna de ser melhor”, Jacque Cortês.


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