sexta-feira, 1 de abril de 2016

FINGIR QUE GAYS NÃO SÃO MAIS VULNERÁVEIS AO HIV QUE HÉTEROS É PERIGOSO E IRRESPONSÁVEL

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A Aids é uma doença terrível, e ninguém – nem grupo nenhum – gosta de estar associado a ela. Numa sociedade que enxerga o sexo de maneira tão negativa quanto a nossa, uma doença sexualmente transmissível mortal tornou-se a confirmação de que os devassos estavam sendo punidos. Muita coisa mudou nos 30 anos desde que a epidemia do HIV começou, mas essa associação entre “comportamentos sexuais errados” e castigo continua presente.
O post “6 clichês gays que são a mais pura verdade” gerou muitas críticas, vindas aparentemente de quem acha que a única maneira de se combater estereótipos é negar sua existência totalmente. Em especial, o último clichê da lista, “Aids é doença de gay”, causou muito desagrado. Esse texto é uma tradução, mas não estaria nesse blog se eu não concordasse com sua argumentação. É compreensível que, devido às conotações negativas já citadas, e ao uso “inocente” e calhorda que muitos fazem da Aids para destilar sua homofobia, os gays façam todo o possível para se dissociar do HIV. A escolha de palavras pode não ter sido a melhor. Quem sabe se em vez de afirmar que “Aids é doença de gay”, como estava no original, talvez o ideal tivesse sido dizer que “Aids faz parte da vida e da cultura gay”. Porque negar que o vírus (ainda) faz muito mais parte da vida dos homossexuais masculinos, travestis e mulheres trans não ajuda a reverter esse quadro.
De início, vamos reafirmar: hétero também pega HIV. E cada vez mais. Quando afirmamos que o HIV afeta muito mais a população LGBT, não estamos dizendo que a transmissão ocorre apenas no sexo entre gays, travestis e trans. Como bem apontaram nossos leitores, 67,5% das novas infecções reportadas em 2012 foi de heterossexuais, sendo que 58,2% delas era de mulheres. Isso, no entanto, não quer dizer que a maioria dos soropositivos hoje em dia seja heterossexual –  essas são novas infecções. Vamos concordar que, se isso é notícia em 2014, certamente a situação era a inversa nas três décadas antecedentes.
O Brasil tinha uma população de 201 milhões de habitantes em 2013. Um relatório da ONU divulgado esse ano aponta que o Brasil tenha 730 mil soropositivos, ou 0,3% da população. Um estudo do Ministério da Saúde feito em 2010 estimou que 10% da população homossexual masculina dos grandes centros urbanos seja soropositiva.  Para que os heterossexuais corressem o mesmo risco de serem infectados com o HIV ao fazer sexo sem proteção que um homossexual, o número de soropositivos total no Brasil teria que ser de 20 milhões (10% da população brasileira). Felizmente estamos bem longe disso. Mas não há como negar que os gays ainda estão correndo muito mais risco de serem infectados que os héteros.
Ao contrário do que pessoas mal-intencionadas tentam vender, a culpa disso não é de uma suposta maior promiscuidade dos gays – os homens héteros são tão promíscuos quanto os homens homossexuais. A maior prova disso é que em países da África subsaariana, onde a epidemia é um problema muito mais grave do que no Brasil, há 25 milhões de infectados, ou 4,5% da população total – chegando a extremos de 26.5% da população da Suazilândia, 23% da população de Botsuana, e 17,5% da população da África do Sul. A causa para que a epidemia ainda se concentre na população HSH (homens que fazem sexo com homens) no Brasil é biológica. O Center for Disease Control dos Estados Unidos publicou em julho a seguinte tabela sobre os riscos de transmissão de HIV:
Tipo de ExposiçãoRisco por 10.000 exposições
Parenteral
Transfusão de sangue9.250
Compartilhamento de seringas para uso de drogas63
Percutâneo (com agulha)23
Sexual
Sexo anal receptivo138
Sexo anal insertivo11
Sexo pênis-vaginal receptivo8
Sexo pênis-vaginal insertivo4
Sexo oral receptivobaixo
Sexo oral insertivobaixo
Outros
Morderdesprezível
Cuspirdesprezível
Arremessar fluidos corporais (incluindo sêmen ou saliva)desprezível
Compartilhar brinquedos sexuaisdesprezível
Como fica claro, o sexo anal é muito mais infeccioso que o vaginal. Pessoas heterossexuais e homossexuais fazem sexo anal. Mas os HSH fazem sexo anal muito mais. Vivemos numa situação em que dois fatores se acumulam para aumentar nosso risco: fazemos um tipo de sexo mais arriscado, numa população com uma prevalência de vírus muito maior. Querer então promover a ideia de que gays correm o mesmo risco de serem infectados que os héteros é uma irresponsabilidade, uma tentativa de manobra de relações públicas que não beneficia a população gay, pelo contrário, a mantém ignorante e a expõe a maiores riscos.
O que todos deveriam promover é a prevenção do HIV, como o uso de preservativos, o uso da profilaxia pré-exposição (PrEP), e gerenciamento consciente de riscos. Há também uma maneira social de se incentivar a prevenção: eliminar o estigma que ainda recai sobre os soropositivos. O medo de se descobrir portador do HIV faz com que muitos evitem fazer o teste (54% dos portadores do vírus HIV não sabem disso). Pessoas que não conhecem seu status não se tratam, ficam por mais tempo com sua carga viral alta, e portanto têm mais chance de transmitir o vírus para outras pessoas (soropositivos que se tratam e têm a carga viral indetectável são praticamente não-infecciosas). O medo do sofrimento social decorrente da soropositividade faz com que muitos prefiram “não saber” para que tudo continue “normal” por mais tempo.
Tornar-se soropositivo não é legal, nem é “de boa”. Tenho certeza que a imensa maioria dos soropositivos prefeririam nunca terem sido infectados. Há problemas físicos (cada vez menores), mas, visto que terão que conviver com o HIV pelo resto da vida, de nada ajuda jogar por cima uma camada de culpa, vergonha e segregação social. Quem é soropositivo hoje vai ter uma vida tão longa, produtiva e feliz quanto um soronegativo, desde que se trate. Podem fazer planos e amarem como qualquer outro ser humano, desde que administrem o vírus em suas vidas. Quem é soronegativo deve educar-se, livrar-se dos preconceitos relacionados ao HIV e dar ao status sorológico de alguém a mesma importância que a diabetes, colesterol alto ou intolerância a glúten.
E quem precisa fazer isso mais que todos são os próprios gays, que muitas vezes discriminam aqueles que revelam serem soropositivos. Vamos falar claramente: você que hoje não tem HIV, ano que vem pode descobrir que contraiu. Sendo explícito de maneira que o texto gringo não podia ser: todos nós já passamos por uma situação em que ficamos com a consciência pesada, na dúvida se fomos infectados ou não. Quando a camisinha estoura. Quando você bebeu ou se chapou demais e não lembra se transou com preservativo – ou pior, tem certeza que não usou camisinha. Uma transa desprotegida pode ser o suficiente para transformar sua vida toda. Uma cultura que não estigmatiza os portadores do HIV previne novas infecções, e torna melhor a vida dos soropositivos – presentes e futuros.
Por fim, as perguntas mais incômodas, porém necessárias: em seu círculo de amigos gays, quantos deles têm HIV? Quantos amigos contraíram o vírus ultimamente? Quantos amigos seus já namoraram um soropositivo? Quantos soropositivos você já namorou? E com quantos você já transou, sabendo ou não? Agora faça essas mesmas perguntas em relação aos seus amigos heterossexuais.
Ok, você pode dizer que nós conhecemos um número limitado de pessoas, em um espaço geográfico limitado e portanto essa avaliação seria inconclusiva e extremamente subjetiva. Sim, mas a OMS, que lida com números globais, já constatou nossa vulnerabilidade e, por conta disso, indicou o uso de Truvada para os HSH. Este vírus é uma sombra em nossa comunidade. Temos de trazê-lo para a luz.

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