Era noite de 23 de março, uma quarta-feira, quando Júlio César soube pela equipe do CRT (Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids-SP) que seu amigo e companheiro Dagoberto Vega veio a óbito. Além de sofrer a dor da perda, ele teve de lidar com o que chama de descaso público. Em denúncia à Agência de Notícias da Aids, Júlio, que trabalha como estoquista num salão de beleza e já foi agente de prevenção, conta que passou por momentos desumanos na hora em que precisou liberar o corpo de Dagoberto no CRT. Segundo o ativista, faltavam equipamentos no necrotério do serviço público e a equipe de segurança o tratou mal.
Dagoberto morreu às vésperas do feriado da Sexta-feira da Paixão. “Lembro que não consegui ir até o CRT no dia porque já era tarde e eu estava longe, em Mogi das Cruzes. Também não iria chegar a tempo de resolver toda a burocracia para a liberação do corpo. Então, combinei com a equipe do CRT que no dia seguinte, na quinta (24), estaria lá cedinho, e foi o que eu fiz. Cheguei ao serviço por volta das 8 da manhã e fui recebido com muito carinho pelas psicólogas e assistentes sociais”, conta. “Fiquei lá o dia todo à espera do carro funerário. Soube mais tarde que o carro só poderia retirar o corpo na manhã do feriado. Aproveitei que já estava por lá e entreguei as roupas do meu companheiro aos funcionários do CRT.”
Na sexta, Júlio chegou ao CRT às 8 da manhã acompanhado da irmã. “O CRT estava vazio, só encontrei na recepção os seguranças e soube por eles que a equipe do terceiro andar (local onde os pacientes ficam internados no CRT) estava trabalhando.”
O carro funerário chegou ao CRT às 8h30. Mas, sem orientação, Júlio e o motorista da viatura não sabiam o que fazer. “Perguntamos para os seguranças qual era o procedimento e eles nos indicaram, com má vontade, a sala do necrotério no CRT. O motorista insistiu e perguntou sobre o corpo, a resposta foi de que ainda estava no freezer. Perguntamos ainda quem ia retirar o corpo de lá e ele mandou que nos virássemos, pois o local não tinha um responsável.”
Júlio foi com o motorista para o tal necrotério. “O lugar é um espaço abandonado, cheio de materiais velhos, bem parecido com algo que chamo de porão, com entulhos. Ao entrar na sala, me deparei logo com uma mesa e em cima dela tinha o tamponamento que sobrou de meu companheiro. Logo percebi que nem os seguranças do CRT nem a equipe da higienização passaram por ali.”
Sem máscaras de proteção individual, Júlio e o motorista entraram na sala usando apenas luvas descartáveis, cedidas pelo próprio motorista da viatura. “No final desta sala encontramos o freezer. Retiramos o corpo dali com muito sacrifício e só depois de acomodar meu companheiro no caixão notei que não havia no local um carrinho para a remoção do corpo. Era impossível somente eu e o segurança carregarmos o caixão até o viatura, pois estava bem pesado. Voltei à recepção, em busca de ajuda. Os seguranças se negaram a nos ajudar. Eles eram uns cinco na recepção do hospital e me mandaram ir ao o terceiro andar do CRT em busca de ajuda. Quando cheguei ao local não tinha ninguém para me atender, a equipe estava prestando atendimento a um paciente com parada cardíaca. Soube depois que essa pessoa também veio a óbito.”
“Me humilhei”
Neste momento bateu um desespero em Júlio: “Voltei à recepção e me humilhei, implorei para que os seguranças me ajudassem, foi uma dor desnecessária, a única resposta deles pra mim foi: se vira...”. Foi aí que o motorista da viatura sugeriu a Júlio que chamasse a política militar. “Assim que a viatura da PM chegou, a equipe do CRT resolveu trabalhar. Desceram dois funcionários totalmente equipados com máscara, luva, toca e avental e nos ajudaram na remoção do corpo.”
“É lamentável ter de passar por situações como essa. Estou sofrendo pela perda de um companheiro, mas a lembrança do descaso dói muito mais. Vou lutar a partir de agora para que outras famílias não vivam o que vivi.”
A resposta
O relato acima foi enviado por Júlio César ao Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids) e para a responsável pelo CRT, a coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids de Sâo Paulo, Maria Clara Gianna. Em carta, o Mopaids se indignou com o relato e também pediu explicações à gestora.
Em resposta a Júlio, Maria Clara lamentou o ocorrido e o sofrimento vivido por ele. Confirmou que a equipe do CRT estava em procedimento com outro paciente naquele exato momento. "Quero acrescentar que o fato ocorreu durante um feriado, o que agravou a situação. Em dias normais, certamente haveria maior disponibilidade de profissionais para auxiliar na solução da situação.”
Além disso, Maria Clara garantiu que providências já foram tomadas junto aos responsáveis pelo serviço terceirizado de segurança. "Eles tiveram um comportamento inadequado e já fizemos reunião com a equipe para esclarecer os fatos."
A Agência Aids também entrou em contato com a gestora e Maria Clara, além de lamentar muito o ocorrido, contou que o CRT vai convidar Júlio para uma conversa presencial.
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