sexta-feira, 6 de maio de 2016

DIA DAS MÃES: Os filhos prestam homenagem às guerreiras da luta contra aids


De quem mais uma mãe espera receber carinho, afeto, boas palavras no seu dia? Dos filhos, é claro. Pensando nisso, a Agência de Notícias da Aids decidiu chamar os herdeiros de algumas guerreiras da luta contra a aids para falar delas. A partir de hoje até domingo (8 de maio), quando se comemora o dia delas, vocês vão ler aqui depoimentos, declarações de amor, relato de histórias desses filhos.  Já adiantamos que todos têm uma característica em comum: muito orgulho de suas mães. "Me dá um orgulho imenso saber o que ela faz pelas pessoas a sua volta", escreveu  Raisa, filha de Áurea Abbade, ambas advogadas. "Mãe que não teve uma faculdade mas sempre teve palavras sábias para  ensinar o melhor caminho", disse no texto a enfermeira  Selma, filha de Maria de Lourdes Romualdo, presidente da ONG Bem-Me-Quer.

“Ela é muito mais forte do que imagina ser”

Filha única da advogada Áurea Abbade,  fundadora do Gapa -SP (Grupo de Apoio e Prevenção à Aids), primeira ONG/Aids na América Latina, Raisa Abbade tem 25 anos e seguiu os passos da mãe ao optar por estudar direito. Hoje, é o braço direito dela, na ONG, no escritório, na vida. Confira o depoimento de Raisa (na foto, mãe e filha no dia em que Raisa tirou a carteira da OAB - Ordem dos Advogados do Brasil e, atrás, sentada, a mãe de Áurea)
“Sempre que pensamos numa mulher forte, admirável, guerreira, lembramos da primeira figura de mulher da nossa vida, nossa MÃE! Sei que é muito clichê, mas é o clichê mais autêntico que existe! Falar sobre a minha, cada vez se torna um sentimento diferente mas cada vez mais forte. Ela, sem dúvida, a cada ano que passa, a cada momento e a cada surpresa que a vida mostra, se apresenta uma mulher muito mais incrível do que eu pensava que fosse ou que imaginaria existir. Ela é doce mas exigente; ela é amiga mas cautelosa, mas, além de tudo, e o mais importante, é meu exemplo de mulher, mãe, filha e profissional. Quando a olho, vejo tudo que quero ser e passar para meus filhos. Representa muito pra mim e me dá um orgulho imenso saber o que ela faz pelas pessoas a sua volta, o quanto se dedica e ama ajudar o próximo,  faz de tudo pra dar certo, não desiste nunca. Se não há saída, ela estreita tudo, mas sempre arruma uma solução. É aquela mulher que luta por tudo que acredita e, neste momento, é muito mais forte do que imagina ser. Então para a minha mãe, a  mais extraordinária que existe, desejo que esse Dia das Mães seja radiante e feliz. E  que,  como em todos os outros, eu esteja ao seu lado demonstrando tudo que ela significa pra mim. Feliz Dia das Mães, Mãe!”
De sua filha amada Raisa Abbade

“Ela nos ensinou a aceitar o outro sem preconceitos”

Filhas de Maria Clara Gianna, coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, as estudantes Mariana e Carolina Gianna, de 20 e 18 anos, cresceram vendo a mãe na luta. Mariana faz faculdade de relações internacionais na USP. Carolina está se preparando para estudar medicina, como a mãe. As duas fizeram juntas o texto a seguir.
“É um grande prazer poder falar um pouco sobre nossa mãe e o orgulho enorme que temos de ser filhas dela, uma pessoa sempre alegre, sorridente e disposta a ouvir e ajudar qualquer um que precise. Muito além do amor de mãe, recebemos dela valores únicos que não seriam tão fortes em nossa família se não fosse por sua trajetória na luta contra o HIV//aids: a aceitação do outro sem preconceitos, a certeza de que podemos fazer a diferença na vida das pessoas com pequenos gestos e a importância da busca por um mundo onde todos tenham os mesmos direitos e oportunidades. Desde pequenas,  acompanhamos seu trabalho e sua dedicação diários, que nos inspiram a alcançar nossos objetivos e a sermos, um dia, mulheres tão fortes como ela. Ter dentro de casa um exemplo assim de mãe, amiga e profissional é uma oportunidade que poucos têm, uma sorte grande. Temos somente a agradecer por seu imenso amor e carinho a todo momento e por ser uma prova viva de como é, sim, possível ser uma profissional dedicada a seu trabalho, ideais e princípios e, ao mesmo tempo,  uma mãe sempre presente. Feliz dia das mães a nosso maior orgulho e inspiração!"
Mariana e Carolina

 

“Há vezes em que ela  volta triste para casa porque alguém que atendeu durante anos faleceu”

O jornalista Felipe Gutierrez é filho de Eliana Gutierrez, coordenadora do programa Municipal de DST/Aids de São Paulo. Já falamos muito da gestora em nosso site mas, com certeza, o mais interessante sobre ela é o que  você lê agora, assinado pelo Felipe.
"Uma das minhas primeiras viagens foi ao Rio de Janeiro, em 1987.  Meus pais alugaram um apartamento em Ipanema, e iríamos ficar lá por uma temporada. Eu tinha 7 anos, e as memórias dessa estadia já não são tão claras. Mas eu me lembro de confundir os conceitos de sotaque com o de uma outra língua, como se a diferença na maneira de pronunciar o português fosse uma barreira para me fazer compreendido pelos cariocas, e de meus pais explicarem que isso não seria um problema. As férias tiveram de ser interrompidas porque a Eliana, minha mãe, foi diagnosticada com tuberculose, uma doença que ainda representava algum tabu, tanto que alguns familiares mais velhos preferiam nem pronunciar. Anos depois, em 1994, ela começou a atender pacientes que têm aids, provavelmente os que têm que enfrentar o maior estigma social por serem vítimas de uma enfermidade.  A Casa da Aids, a iniciativa de levar a um lugar especializado o tratamento ambulatorial, ainda não estava com as portas abertas quando ela foi trabalhar lá. Salvo engano, o primeiro endereço era em Pinheiros. Depois foi para a rua Frei Caneca, onde ela acabou por se tornar diretora do centro. Ela continuou a atender no ambulatório -- o que ainda faz, e suspeito que seja o que mais gosta. Há vezes em que volta triste para casa dela porque alguém que atendeu durante anos faleceu. É comum ela relatar histórias que ouviu dos pacientes. Um deles era dono de uma fazenda de orquídeas; um outro tinha um problema de pele indiagnosticável, até que se soube que ele não enxaguava o sabão do corpo ao sair do banho etc. Na prefeitura, os grandes números também a empolgam (quantos testes foram feitos, quantas camisinhas retiradas, tantas pessoas baixaram o aplicativo etc.). Esse entusiasmo é invejável: são mais de 20 anos que ela trabalha com pacientes soropositivos, e seria natural perder o pique depois desse tempo. Mas o envolvimento dela talvez tenha crescido -- e está aí algo que eu me esforço, na minha profissão, para tentar alcançar.”
Felipe Gutierrez

“O pedaço maior dessa mãe é meu, mas vários pedacinhos estão com várias pessoas”

A enfermeira Selma é filha de Maria de Lourdes Romualdo, presidente da ONG Bem-Me-Quer desde 2012, quando a Irmã Helena morreu. No projeto ela está desde a sua fundação, em dezembro de 1996, e  já fez de tudo ali, desde atendimento de telefone até acolhimento de pessoas soropositivas e entregas de cestas básicas. Em casa, é tão guerreira quanto no front das batalhas contra a aids, como nos conta Selma.
“Lourdes... Dona Ude ou Duda, para mim uma mulher guerreira, exemplar, da qual me orgulho chamar de Mãe. Desde muito cedo, aprendi a admirá-la e respeitá-la. Com seu jeito simples, humilde e muito dócil nos ensinou que a essência maior dessa vida é o amor que temos em nós mesmos e podemos gratuitamente dar ao nosso próximo. Eu era uma criança e ela já me ensinava e me conduzia em suas lutas e trabalhos. Eram esses passos caminhadas e a chegada, um lugar de solidariedade, igualdade, partilha, respeito ao mundo e à vida, tudo com muita dedicação. Mãe que não teve uma faculdade mas que sempre teve palavras sábias para  ensinar o melhor caminho. Nenhuma das dificuldades da sua vida simples impediram de nos fazer hoje seres humanos dignos de assumir o papel de cidadãos humanizados com responsabilidade social. E hoje sei que o pedaço maior dessa mãe é meu, mas que vários pedacinhos estão distribuídos em vários locais e em pessoas. Dona Lourdes é mãe de vários filhos, minha mãe guerreira, que brinca, festeja, chora, é amiga, dá bronca, mas está sempre de braços abertos.  Ter essa pessoa tão querida  em nossas vidas é a maior dádiva, um presente de Deus. Por todas as lutas e trabalhos, por toda vivência ao seu lado, por todo o aprendizado e sorrisos compartilhados só posso dizer muito obrigado.”
Selma Romualdo

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