Às vésperas da reunião do G20, na China, a Revista G7G20.com publicou uma entrevista com o diretor executivo do Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), Michel Sidibé, sobre as perspectivas e desafios para alcançarmos o fim da epidemia de aids até 2030. A revista é fruto de uma parceria entre os Grupos de Pesquisas G7 e G20 da Munk School of Global Affairs, da Universidade de Toronto (Canadá).
Segundo o Portal do Planalto, a cúpula do G20 acontece nos dias 4 e 5 de setembro. Um dos temas centrais é a promoção do crescimento econômico inclusivo. Durante o encontro, os líderes do G20 vão apoiar a implantação da Agenda de Desenvolvimento 2030, com as Metas de Desenvolvimento Sustentável. O G20 reúne 85% da economia global e 75% da população do planeta.
Confira abaixo a entrevista na íntegra, com tradução livre feita pelo escritório do Unaids no Brasil.
Revista G7G20: A epidemia de aids ainda ameaça as previsões para uma economia mundial inovadora, revigorada, interligada e inclusiva?
Michel Sidibé: Na última década, o mundo fez enorme progresso rumo ao fim da aids. Nos últimos anos, o número de pessoas vivendo com HIV em terapia antirretroviral aumentou cerca de um terço, chegando a 17 milhões de pessoas. Nas áreas mais afetadas do mundo, regiões Oriental e Sul do continente africano, as mortes relacionadas à aids caíram mais de um terço desde 2010. Na África, há mais pessoas agora em tratamento do que pessoas se tornando recém-infectadas pelo HIV. No entanto, o efeito paralisante da aids ainda está sendo sentido em todas as regiões, incluindo em muitos países membros do G20. A aids ainda prejudica a produtividade, sufoca o crescimento local e nacional e ofusca as perspectivas para a construção de economias verdadeiramente inclusivas.
Como os membros do G20 podem apoiar os esforços para o fim da epidemia?
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) incluem uma meta ousada, mas viável, para acabar com a epidemia de aids até 2030. O nosso sucesso no alcance desta meta depende inteiramente do que fizermos hoje. Precisamos Acelerar a Resposta à Aids durante os próximos cinco anos, aumentando e reforçando os investimentos. Precisamos começar agora. Estou muito motivado com o fato de os membros das Nações Unidas terem aprovado recentemente uma Declaração Política ambiciosa na Reunião de Alto Nível da ONU sobre o fim da aids. A declaração inclui ações e compromissos baseados em evidências, metas a serem alcançadas até 2020 e nos coloca em um caminho mais rápido para acabar com a aids dentro de 15 anos. Ela pede por investimentos anuais de pelo menos 26 bilhões de dólares até 2020. Se seguirmos o roteiro estabelecido pela Declaração vamos acabar com essa epidemia. O retorno sobre os investimentos será significativo.
Precisamos da ajuda do G20 para sustentar esse momento crítico. Devemos manter a aids no topo da agenda da política e econômica global. Todos os dias, 6 mil pessoas são infectadas pelo HIV. A aids continua a ser a maior causa de morte de mulheres em idade reprodutiva e a segunda maior entre adolescentes. Temos as ferramentas e o conhecimento científico necessário para acabar com a aids. Se nós os desperdiçarmos, o mundo não perdoará o nosso fracasso. Essa pode ser a nossa última chance. Se mantivermos os níveis atuais de cobertura de serviços, iremos prolongar a epidemia por tempo indeterminado e, em vários países de baixa e média renda, haverá a retomada da epidemia.
A África do Sul agora investe 1,5 bilhão de dólares por ano em programas de aids, comparado a quase nada alguns anos atrás. Hoje, cerca de 3,4 milhões de sul-africanos recebem tratamento para HIV - mais do que qualquer outro país no mundo. A África do Sul tem integrado a sua resposta à aids ao sistema nacional de saúde. Esse é um exemplo brilhante de como a liderança política pode ajudar a salvar vidas e a construir programas de saúde sustentáveis e integrados, abrindo o caminho para a cobertura de saúde universal e para o objetivo de segurança em saúde para todos.
Trata-se de investir sabia e estrategicamente nos lugares e pessoas que gerarão maior impacto para a resposta. Os programas de AIDS estão se tornando mais eficientes todos os dias. O retorno sobre os investimentos está crescendo exponencialmente. Embora os fundos para o HIV tenham aumentado apenas 11% entre 2011 e 2014, o número de pessoas que recebem ARV (antirretrovirais) cresceu cerca de 60%.
Três ingredientes adicionais são críticos. O primeiro é a inovação. Nós precisamos de novos medicamentos, vacinas preventivas e terapêuticas, métodos de contracepção para mulheres e, finalmente, uma cura funcional - além de formas completamente novas de prestação de todos esses serviços às pessoas.
De mãos dadas com a inovação, temos a necessidade de continuar expandindo e fortalecendo a colaboração com o setor privado. Um caso de uma parceria de sucesso entre membros do G20 é Danlan, uma organização comunitária que promove os direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais na China. Ela combina a tecnologia da informação com a sensibilização da comunidade, incluindo links de serviços de HIV em aplicativos de relacionamento e em mídias sociais para os seus 15 milhões de usuários. Danlan tem sido fundamental para o aumento de testagens para o HIV entre essa população.
Em segundo, alcançar comunidades que estão sendo deixadas para trás. Talvez seja o mais crítico ingrediente para o sucesso. Esse mandato perpassa todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, incluindo aqueles dedicados ao crescimento econômico, industrialização e inovação.
Em terceiro, responsabilidade e transparência são o centro para que as promessas sejam mantidas. Peço ao G20, enquanto principal fórum para a cooperação econômica internacional, que se comprometa em seu comunicado com as metas e objetivos da Aceleração da Resposta para 2020 e que se responsabilize por isso.
Os esforços para acabar com a aids devem formar uma parte integral da agenda do G20 a fim de construirmos sociedades inclusivas e prósperas.
Peço ao G20 que lidere os esforços para uma Aceleração da Resposta à aids. A China, sozinha, tirou mais de 700 milhões de pessoas da pobreza nas últimas três décadas. Com o G20 na liderança, juntos, podemos acabar com a epidemia de aids até 2030.
Confira a entrevista completa em inglês na página 180 da edição de setembro da revista G7G20.com
Fonte : Unaids
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