sexta-feira, 7 de outubro de 2016

AIDS BOA NOTÍCIA: ONG responsável pelos testes rápidos de HIV em Manaus mostra que quem quer faz


om esta reportagem, a Agência de Notícias da Aids  inaugura  uma seção em que o objetivo é mostrar ações positivas, venham elas de entidades  do governo, da sociedade civil, de uma pessoa, da comunidade científica, das indústrias envolvidas com o tema. O importante é que tenham um impacto no combate às DSTs/aids e contribua para melhorar a qualidade de vida das pessoas vivendo com a doença. A ideia é publicar AIDS BOA NOTÍCIA semanalmente.
A casa é pequena: sala, cozinha, quarto, banheiro. O quintal é ocupado por um galinheiro, onde o dono, Luiz Gonzaga, cria galos de raça. Em duas saletas conjugadas, que deveriam ser quartos, uma delas com janela praticamente dentro do galinheiro, funciona a sede de uma ONG que vem fazendo uma diferença imensa na luta contra a aids em Manaus (AM). Estamos falando da Rede de Amizade e Solidariedade, integrada por  pessoas vivendo e convivendo com HIV. Luiz Gonzaga, o dono da casa com galinheiro, é cofundador da ONG, ao lado do seu ex-companheiro, Edson Conceição Gonçalves.
A Agência de Notícias da Aids visitou a entidade no mês passado, quando acompanhou ações da AHF (Aids Healthcare Foundation) em parceria com o Ministério da Saúde. A AHF é uma organização não governamental, com sede em Los Angeles (EUA), e atuação em 36 países, onde atende cerca de 600 mil pessoas nas áreas de prevenção e tratamento de HIV/aids, entre elas, moradores de Manaus, É aí que entra a Rede de Amizade e Solidariedade, recebendo o apoio da AHF.
A Rede
Fundada em 1997, a Rede de Amizade (os integrantes preferem chamá-la só assim) funciona, há seis anos, na casa que visitamos, na rua Igarapé dos Passarinhos, bairro Monte das Oliveiras, a pelo menos  uma hora do centro da capital do Amazonas.  Passou a ser coordenada recentemente por Maria Sineide Conceição Gonçalves. Sineide sempre foi uma mistura de faz-tudo e anjo da guarda na ONG, com a qual colabora desde a fundação, em 1997.
“Entrei no movimento quando meu irmão recebeu o diagnóstico de HIV e senti que tinha de me engajar para ajudá-lo”, conta Sineide. O irmão é o Edson, ex-companheiro do Luiz Gonçaga. Edson deixou a coordenação da ONG há cerca de um mês para integrar outro projeto – ele é um dos seis navegadores contratados pela AHF para ajudar no processo de descentralização do atendimento das pessoas com HIV da FMT (Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado) para os SAEs (Serviços de Atenção Especializada) da cidade.
“O Luiz Gonzaga era companheiro do Edson e cedeu o espaço para a ONG funcionar dentro da casa dele, porque não tínhamos para onde ir”, continua Sineide. “Antes, a gente ficava numa sala cedida pelo Conselho Regional de Economia, num prédio do governo, mas tivemos de sair de lá.”
O galinheiro
Anita Castille, diretora global de Recursos Humanos da AHF, de Los Angeles, que estava entre os visitantes, pergunta qual é a história do galinheiro (foto). “É o xodó do Luiz Gonzaga”, responde Sineide. “Uma vez ele caiu em depressão e só começou a se animar quando conheceu esses galos de raça, que cria como animais de estimação. E tem algumas galinhas que botam, de vez em quando ele faz uma galinhada.”
Nas duas pequenas salas, há três computadores novos, comprados como recursos da Interfederativa (união do governo federal, do estado e do município com apoio da AHF). Numa estante e num armário, ficam os materiais impressos usados na campanha Viva Melhor Sabendo, documentos, fichas de usuários.  Está bem apertado, mas não é isso o que preocupa Sineide e os seus colaboradores.
 “O chato é ter de passar pela cozinha do Luiz Gonzaga para chegar às salas”, diz a coordenadora. “Ele mora aqui, é a casa dele. Muitas vezes, está recebendo parentes e temos de atravessar a cozinha. A gente está invadindo a privacidade dele, né?”
Foi por isso que os ongueiros tomaram uma decisão. Pediram autorização a Luiz para construírem uma nova sala num terreno na lateral da casa. Ele permitiu e o pessoal já arregaçou as mangas. Com que dinheiro? “Com dinheiro tirado dos nossos bolsos, cada um dando um pouco”, revela Sineide.  Mas vocês podem? “Sim, porque temos a verba do Viva Melhor Sabendo. Eu ganho mais, pois sou da coordenação [R$ 1.600]. Os oito educadores ganham menos [R$ 934), então, dá para todos colaborarem.”
Além de responsável pelos testes de fluido oral em Manaus, a Rede de Amizade atua apoiando as pessoas com HIV no dia a dia. “Nosso sonho é ter uma equipe multidisciplinar aqui dentro, com psicólogo, advogado, assistente social. Até hoje, o que conseguimos foi uma psicóloga, que trabalha como voluntária na ONG há quatro anos. Outras demandas, como auxílio jurídico, a gente busca parcerias públicas para resolver.”
Sineide conta que a maioria das pessoas que busca ajuda de sua equipe é vítima de preconceito. “Elas contam que foram abandonadas ao receberem o diagnóstico do HIV, muitas são expulsas pelas famílias, sofrem agressão, são deixadas nas ruas.”
Mas isso ainda acontece em Manaus? “Não só em Manaus como no Brasil todo”, responde a ativista.
Michael Kahane, chefe da AHF nos Estados Unidos, pergunta ao jovem Leandro Ferrão, ativista da Rede de Amizade, se ele já sofreu discriminação. “Sim, inclusive por parte da minha família. Quando contei, lá em casa, depois que eu usava o banheiro, eles lavavam tudo com cloro.  Achavam que eu poderia passar o vírus usando os mesmos utensílios deles”, respondeu Lendro.
O jovem conta que só se fortaleceu para aceitar o diagnóstico e lutar contra o HIV depois que procurou Edson. “Ele me acolheu e eu nunca mais saí daqui.”
Entendendo a parceria
No Amazonas, segundo estado brasileiro com maior número de novos registros da doença (antes, vem o Rio Grande do Sul), a parceria AHF/governo foi selada num acordo de cooperação firmado em 2014.  Foi quando, para unir esforços no combate às DSTs/aids e hepatites virais no estado, foi criada a Interfam ou Interfederativa -- o termo de cooperação entre governos federal, estadual e municipal.
A AHF entrou nesse acordo apoiando o projeto Viva Melhor Sabendo, estratégia essencial na política brasileira de testar e tratar por levar aos lugares onde estão as populações mais vulneráveis os testes rápidos de HIV. Quem aplica esses testes, de fluido oral, são as ONGs. Para isso, elas são treinadas pelo Departamento de HIV, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, que também lhes fornece os testes. Acontece que, para receber a capacitação, essas entidades precisam entrar numa licitação. E, para entrar na licitação, precisam estar absolutamente legalizadas.
 “Mas a realidade no Amazonas é a de ONGs que não conseguiram se legalizar, por vários motivos, entre eles, falta de recursos”, explica Adele Benzaken, diretora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. “A AHF não exige essa parte legal das entidades que apoia e chegou numa boa hora, quando precisamos muito arregaçar as mangas”, continua a diretora.
A AHF tem foco exatamente no “pôr a mão na massa”, como explica a coordenadora da ONG no Brasil, Cristina Raposo.  “Estamos em contato direto e constante com as entidades que apoiamos, porque nosso trabalho não é apenas oferecer recursos mas também acompanhá-las e garantir que tenham sustentabilidade”, continua Raposo.
A Rede Amizade foi a escolhida no Amazonas como responsável pelos testes de fluido oral e passou a funcionar, com ajuda da AHF, como uma guarda-chuva, sob o qual se abrigam outras ONGs, como a Ardam (Associação de Redução de Danos da Amazonia), a Apam (Associação das Prostitutas do Amazonas) e o Fórum LBT do estado.
Faça sol, faça chuva
Na Rede de Amizade, o que não falta é gente disposta a trabalhar. Não importa a distância, não importa o tempo, quatro dias na semana o grupo sai levando testes rápidos, camisinhas e informações sobre DST/aids para as populações. Geralmente, contam com ajuda de voluntários de ONGs parceiras.  Nossa reportagem acompanhou a ação feita numa terça-feira (20 de setembro) no cais do Porto de Manaus, no centro da capital amazonense.
Sem carro oficial, de transporte coletivo mesmo, saímos da Secretaria Municipal da Saúde (Semsa) e levamos cerca de uma hora para chegar, de ônibus, ao Porto. O ponto de encontro da testagem foi marcado na frente do Mercado de Peixe e andamos alguns bons quarteirões, com os voluntários carregando em sacolas o material a ser usado.
Assim que chegamos ao destino, o tempo fechou, anunciando uma tempestade que não demorou a desabar. Os voluntários das ONGs parceiras iam chegando e se juntando: Ana dos Santos, da Associação das Prostitutas de Manaus, Erikson Queiroz, da Rede de Jovens Vivendo com HIV/Aids do Amazonas...
O dia escureceu e enquanto a chuva caía não era possível fazer os testes. As portas do Mercado de Peixe começaram a ser fechadas, os empregados jogavam água com sabão para lavar chão e balcões.  Ir embora e adiar a testagem parecia a solução óbvia, mas o pessoal da Rede de Amizade preferiu entrar no mercado e, mesmo com a espuma da limpeza subindo pelas canelas,  distribuiu ali  camisinhas, material impresso informativo e avisou que os testes seriam feitos assim que a chuva passasse.
Já era noite quando a chuva passou e Daniel Bahia, Elisângela Costa, Eliene Santos, Leandro Carrão  e Ingrid Gonçalves estenderam os banners do Viva Melhor Sabendo na calçada do Mercado do Peixe.
As pessoas, muitas vivendo em situação de rua, se aproximavam curiosas, algumas desconfiadas. “É teste de aids, é?”. Aos poucos, começaram a pedir informações, tirar dúvidas e a preencher e assinar o termo de autorização proposto pelo vinculador, Leandro Ferrão – é um documento com dados da pessoa a ser  testada e permissão para que, em caso de resultado positivo, o vinculador a acompanhe  até um serviço de saúde para o teste confirmatório e, depois, continue monitorando para ver se ela entrou em tratamento.
Um dos primeiros a fazer o teste foi um vendedor de peixes de 26 anos. Ao pegar o resultado egativo, ele suspirou: “É a primeira vez que faço esse exame, então, como em toda primeira vez, fiquei apreensivo. Mas estou aliviado.”
Naquela noite, foram feitos 36 testes, com nenhum resultado positivo. Mas nem sempre a notícia é tão boa. “Em um ano, fizemos três mil testes, com 86 positivos sendo que, desses, dez já sabiam o diagnóstico.”
Dicas de entrevista
Departamento de DST,Aids e Hepatites Virais
Tel.: (61) 3315-7665
AHF (Aids Healthcare Foundation)
E-mail: cristina.raposo@aidshealth.org
Rede de Amizade e Solidariedade
https://www.facebook.com/redeamizadesolidariedade/?fref=ts
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