Atender, cuidar e garantir a qualidade de vida de crianças vivendo com HIV/aids ou expostas à doença. Estes objetivos mobilizaram os profissionais de saúde da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT), em Manaus (AM), em dezembro de 1999. Juntos, eles fundaram a Associação de Apoio à Criança com HIV, também conhecida como Casa Vhida. A ideia era acolher os mais novos quando seus pais estavam internados, o que era comum na época. A pediatra Solange Dourado, fundadora e presidente da ONG, conta que, no final da década de 1990, os profissionais envolvidos no atendimento de crianças soropositivas perceberam que, além de cuidados médicos, as crianças necessitavam de suporte social e psicológico. A casa chegou a atender mais de mil menores. Hoje, 18 moram ali.
"Nossas crianças faltavam nas consultas médicas e na maioria dos casos os pais não tinham dinheiro para ir até o hospital. Outros não tinham condição de saúde para cuidar de seus filhos. Algumas crianças viviam em situação de vulnerabilidade social. Elas vinham de famílias muito carentes e somente os medicamentos não eram suficientes para garantir que ela crescesse saudável."
A esperança
Solange explica que a mobilização dos voluntários começou na própria Fundação, com a distribuição de leite. "Como o HIV também é transmitido via leite materno, é recomendado que as mães soropositivas não amamentem seus filhos. Assim, nos concentramos na distribuição da fórmula infantil para melhorar as condições nutricionais dos pacientes", observa a pediatra.
Com o crescente número de crianças e a falta de estrutura na Fundação para este tipo de atendimento, o grupo decidiu buscar um espaço adequado para atender os pequenos e fazer doações. "Nossa primeira sede foi em uma casa antiga cedida pela Prefeitura de Manaus."
No primeiro ano, a casa recebeu três crianças. Mas não demorou muito e o número subiu para 30. "Começamos a oferecer, com o apoio do governo e de empresas privadas, suporte escolar, atividades recreativas, reforço, outras especialidades médicas. Eu já atendia as crianças na Fundação de Medicina Tropical, tínhamos um vínculo e, na casa, o cuidado delas continuou por minha conta."
Solange conta que se envolveu neste trabalho para realizar um sonho que tinha desde pequena: mudar a realidade das crianças mais pobres. Ela explica que não foi fácil. "Tinha que dar conta do meu trabalho e da família, sou mãe de cinco filhos, duas meninas e três homens e avó de dois netos. Me agarrei na esperança por um mundo melhor e hoje estou muito satisfeita com tudo que já fizemos."
Nova sede
Em 2003, a Casa Vhida ganhou novo endereço. De acordo com Solange, o primeiro imóvel era bem grande, mas, por falta de reforma, estava inadequado para receber as crianças. "A Prefeitura de Manaus entendeu a necessidade de abrigar os pequenos em outro local e, com a ajuda da comunidade, iniciamos, em novembro de 2003, as obras da nova sede. Muita gente se envolveu no projeto e, em julho de 2004, inauguramos a nova Casa Vhida.”
Hoje, Solange se orgulha de contar com um espaço bem estruturado. “Temos salas de aula, miniquadra de esportes, área de atendimento médico equipada, consultórios odontológico e psicológico, refeitório, sala de dança e lazer além de quartos separados por sexo e faixa etária", descreve a médica.
Além de abrigar 18 crianças, Solange conta que a casa funciona como uma espécie de creche para as crianças cujas mães, soropositivas, trabalham fora. A família leva a criança de manhã e pega no final do dia. "Temos estrutura para abrigar 50 crianças, mas, desde 2009, há uma nova lei que diz que não podemos abrigar mais de 20, então, tivemos que diminuir. Mas, quando é preciso e o juizado de menor permite, esse número é ultrapassado.”
Para tudo funcionar direitinho, Solange conta com uma equipe de mais de 30 pessoas. Há cuidadores 24 horas, nutróloga, nutricionista, dentista, cozinheiro, profissionais da área técnica e administrativa, pediatra, entre outros.
A Casa Vhida é a única que abriga crianças com HIV no Amazonas e, por isso, sempre que pode expande os seus trabalhos para todos os afetados, de uma maneira ou de outra, pelo HIV. Um dos suportes que a casa dá às famílias carentes é a medicação. "Por exemplo, quando uma criança fica doente, não temos o medicamento no SUS e o familiar não tem o dinheiro para comprar o remédio, a casa compra", explica Solange.
Também está concentrada na casa a distribuição de leite para os pequenos. "O governo paga para que a criança exposta ao HIV receba leite até os seis meses. Nós, em parceria com a prefeitura, estamos conseguindo garantir leite até os dois anos de idade."
Outro projeto da instituição é a distribuição de cestas básicas. Segundo a pediatra, uma vez por mês acontece na Casa Vhida o momento de vivência, quando a ONG oferece aos pais palestras. Neste dia, a família retira a cesta básica. "Temos uma parceria com o projeto Mesa Brasil SESC [rede nacional de bancos de alimentos contra a fome e o desperdício] e os alimentos que recebemos deles são distribuídos para os mais carentes."
Outro orgulho da pediatra é ter a história de uma de suas crianças registrada no livro "Criança Esperança: 30 anos, 30 histórias”. A publicação, da Unesco e da Globo, lançada neste ano, traz depoimentos de pessoas que encontraram um caminho para romper o ciclo de pobreza e violência em suas comunidades, além de coordenadores de projetos apoiados pela Campanha, que relatam sua atuação em defesa da infância e da juventude. "Este é um reconhecimento ao nosso trabalho."
Neste ano, a ONG decidiu lançar um novo projeto, o Floreando a Vida, que consiste em dar a cada criança da instituição uma planta. Esta é entregue durante consultas médicas e a criança é orientada a cuidar dela como se estivesse cuidando da própria saúde.
Realidade
O Estado do Amazonas está entre os que mais registram nascimento de crianças com HIV no Brasil. Segundo dados do Boletim Epidemiológico de 2015, o Brasil tem um taxa de 2,8 casos de aids em crianças de até 5 anos a cada 100 mil habitantes. O Rio Grande do Sul e o Amazonas apresentam as maiores taxas nesta população, 7,2 e 7,1 casos para cada 100 mil habitantes, respectivamente.
Segundo Solange, Manaus registrava uma média de 25 novos casos de aids em crianças ao ano. "Hoje, a realidade é outra, fizemos um trabalho de mobilização nas maternidades e no último ano registramos 6 ou 7 casos."
A especialista contou que o governo local criou o selo 'Sem Transmissão Vertical' para premiar as maternidades que fazem toda a profilaxia preventiva antes e durante o parto e evita a transmissão. "Nossa missão é atuar na hora do parto para que nossas crianças nasçam livres da aids."
Questionada sobre o futuro, a médica é direta: continuar fazendo a diferença na vida da criança soropositiva. "Nosso objetivo sempre será dar suporte aos que mais necessitam. No dia em que não existir mais crianças com HIV, vamos entregar a casa para que outros trabalhos com crianças possam ser realizados neste espaço."
A casa já coleciona vários prêmios, entre eles o prêmio Amigo da Saúde 2012 - título concedido pelo Conselho Municipal da Saúde em reconhecimento aos serviços prestados à população de Manaus; Prêmio de Incentivo à Prevenção e ao Tratamento do HIV/Aids 2007; prêmio Saúde Brasil 2006; prêmio Qualidade Amazonas 2006 Prêmio Qualidade Amazonas 2005; prêmio de Mérito Social 2004 e prêmio Bill Gates.
Na foto, a pediatra se despede de um dos meninos que ali morou e foi morar em outro estado ao ser adotado
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