Psicólogo com mestrado em saúde pública, Salvador Correa, de 31 anos, tinha 26 quando se descobriu soropositivo. Com medo de causar sofrimento à família, ele guardou segredo do diagnóstico e criou um blog, O Segundo Armário: Diário de um Jovem Soropositivo, no qual registrava seus sentimentos em relação à nova vida pós-HIV. Do primeiro armário, Salvador havia saído bem antes, quando revelou que é homossexual. Do segundo, ele levou apenas três anos para sair. Foi quando assumiu publicamente a sorologia e transformou os textos do blog num livro que está lançando nesta sexta-feira (15), no Rio de Janeiro. A obra já é sucesso na internet, onde está disponível para download. Sobre isso e muitas outras histórias, o autor, que hoje é coordenador executivo adjunto da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), fala na entrevista que segue:
Agência de Notícias da Aids: O livro conta toda a sua história, desde o começo?
Salvador Correa: Conta sim. Eu comecei a escrever dois meses após o diagnóstico. Tudo ainda estava muito intenso nesse momento inicial. Quando fiz a leitura, agora em 2016, para a versão impressa, eu tive um processo de estranhamento dos textos iniciais e, mais para o final, eu fui me identificando muito mais. Isso mostra que eu mudei a forma como vejo o vírus na minha vida. Eu resolvi manter os textos exatamente na forma como eles foram escritos e, assim, o leitor poderá ver como foi ocorrendo meu processo de elaboração desse diagnóstico.
O que mudou na sua vida depois que você escreveu este livro?
Muita coisa mudou. O livro foi escrito exatamente desde a descoberta do vírus até quase três anos depois. A forma como hoje eu lido com o HIV e a transformação dessa experiência em militância certamente resultam, em partes, desse processo. O mais importante de tudo isso é que o livro me possibilitou um contato único com os leitores. Grandes intercâmbios e trocas imensuráveis. Isso me faz crescer diariamente.
O que motivou você a escrever?
Eu saí do armário, pela primeira vez, ao assumir que sou gay. Logo que recebi o diagnóstico, eu me senti preso no segundo armário. Isso me sufocava, eu me via obrigado a esconder a sorologia das pessoas que mais amo. Hoje, penso que a revelação sempre deve ser pensada com cautela, pois cada um sabe o contexto que vive e quais seriam os ônus e bônus de contar. Eu necessitava de um espaço para falar sobre isso e criar uma base sólida de apoio. Inicialmente (e por um bom tempo) esse espaço foi a internet. Num blog, que se transformou no livro, eu expus toda a minha dor, medo, anseio, vivências, realizações, superações, desafios. O efeito de escrever foi terapêutico. Eu conseguia me organizar na minha bagunça.
No livro, você se chama Gabriel Abreu. Usar um pseudônimo significa que ainda tem uma parte sua dentro do armário?
Durante muito tempo, significou exatamente isso. O codinome funcionou como uma espécie de proteção ou uma capa contra algum tipo de rótulo ou discriminação que poderia ser dirigida a mim. Mas com o ebook percebi que a reação que o livro provocou foi baseada em sentimentos muito profundos e tocou meu lado mais humano. As trocas foram tão motivantes que não teve espaço para eu me confundir com o próprio o vírus -- algo que aconteceu um pouco no início desse processo. Isso fez com que nessa nova versão impressa, com seus novos textos, eu escancarasse as portas do armário. Mantive o Gabriel para desconstruí-lo e fazer emergir o Salvador.
Você diz que não recomenda este livro para quem acabou de receber o diagnóstico. Por quê?
Eu realmente pensava assim. Mas, depois que vi o depoimento das pessoas que me escreveram, mudei muito meu posicionamento. Recebi e-mails e mensagens pelo Facebook de recém-diagnosticadas. Muitos viram nesse relato uma identificação que ajudou no processo de elaboração. Acho que eu não queria que as pessoas sofressem o que eu sofri. Mas o sofrimento, embora não seja uma regra, em maior ou menor grau acaba aparecendo na maioria dos casos. Nesse sentido, acho não estamos sozinhos. Somos humanos e passamos por essa etapa. A escolha de uma tentativa de escrita em forma de catarse trouxe à tona uma sinceridade acerca do que eu sentia. E isso foi sem cortes e sem edição. Isso pode permitir essa identificação e esse mergulho nos sentimentos mais profundos.
Hoje eu tomo o remédio religiosamente. Mesmo no início eu tomava religiosamente, apesar dos efeitos colaterais -- que eram muito mais intensos. Hoje eu continuo tomando o mesmo esquema (tenofovir, efavirenz e lamivudina) e, ocasionalmente, eu sinto os efeitos colaterais, como insônia, sono pesado pela manhã e às vezes uma indisposição para fazer atividade física. O que mais me dói é saber que o Brasil me nega acessar medicamentos mais modernos e com menos colaterais -- como já fazem nos Estados Unidos, por exemplo. Independentemente disso, tenho certeza de que a vida vale a pena. Tomar a medicação vai se tornando parte da rotina. Já vou no automático. Às vezes tem pontos positivos. Semana passada, fui ao aniversário de um amigo e já estava completamente embriagado de efavirenz. O álcool nem fez falta (rsrs...).
Que tipos de comentários você tem recebido de seus leitores?
Logo no início, ainda no blog, eu recebi o comentário de uma mãe que se tornou minha leitora pois seu filho havia descoberto que tinha HIV. Esse momento me tocou muito, pois eu estava passando pela fase de querer falar com minha mãe, ter colo, sabe? Os comentários dessa mãe leitora me transmitiram muito amor. Recebo também muitos comentários de pessoas que se identificam com os textos. Acham o relato muito vivo e intenso, rompendo com o clima autoajuda "tenha HIV e seja feliz". Um leitor me disse que se rasgou internamente e depois se sentiu mais fortalecido. Eu quase sempre me emociono com as mensagens que recebo e sempre respondo. Na verdade esse tem sido o meu maior ganho. É exatamente o que me motivou a fazer a versão impressa do livro.
Como é reviver momentos de sua vida marcados pelo HIV?
O processo de revisão dos textos foi muito intenso. Tão intenso quanto são intensas as músicas do livro. Sempre que escuto algumas delas é inevitável evocar algumas lembranças. Mas as sensações não são mais as mesmas. Sempre tem um novo significado. Acho que a música serviu para me ajudar a exorcizar a minha dor. Eu criei uma playlist no Spotfy - intituladas "O Segundo Armário (músicas do livro)". Basta acessar o aplicativo e seguir a playlist. Acho que isso deixará a leitura do livro bem intensa.
Você já sofreu algum tipo de preconceito por ser soropositivo?
Já e posso afirmar que essa é a face mais cruel desse diagnóstico. Eu já sofri preconceito por parte de uma médica, uma dentista e -- a que mais doeu -- de meu ex-namorado. É sempre difícil lidar com situações como essa e certamente não há uma regra de como agir melhor. Mas os sentimentos produzidos pelo preconceito passam e com o tempo a gente vai amadurecendo isso. Hoje, quando percebo algo do gênero eu saio da condição de "vítima" e tento atuar ativamente nesse processo, desconstruindo sempre que possível os pensamentos da pessoa acerca do HIV. A base do preconceito é o desconhecimento. O melhor de tudo é que assim como as pessoas aprendem a ser preconceituosas elas também aprendem a solidariedade, o amor. Eu já colhi bons frutos da solidariedade que me marcaram muito mais do que os preconceitos.
O que te motiva a integrar o movimento social de aids? Faltam políticas públicas para essa população?
Logo que soube do HIV, eu fui construindo um caminho para trabalhar com aids. Eu já trabalhava no campo da saúde pública, já era especialista em saúde coletiva e estava no meio do meu mestrado na área. Comecei a me candidatar para vagas ligadas a esse tema e fui me envolvendo cada vez mais. Infelizmente o movimento social de aids está fragilizado. Muitas organizações fecharam as portas e o controle social precisa ser fortalecido. As políticas públicas são incipientes para dar conta da demanda, a epidemia segue crescendo em algumas populações, o Brasil está atrasado em termos de medicações para esquema inicial, e também na prevenção. Cada vez que a gente acha que a PrEP (profilaxia pré-exposição) finalmente será incorporada, o país lança uma nova pesquisa. Existem denúncias graves de violações de direitos nos serviços de saúde. Infelizmente isso não é característica apenas da aids, mas de todo SUS (Sistema Único de Saúde). O tratamento da aids no Brasil já foi referência internacional e hoje estamos, como todo o SUS, precisando de esforços do governo e da sociedade civil. O SUS é uma das maiores conquistas do Brasil e vê-lo sucateado, privatizado e, principalmente, tendo seus princípios desrespeitados, dói muito.
Acho que manteria muitas coisas, como os amigos que fiz nessa trajetória, as histórias bonitas de aceitação, respeito e solidariedade. Eu apagaria a discriminação, e talvez agisse de uma forma mais positiva com ela. Na verdade, mesmo hoje, não dou conta dos meus planos. Não caibo neles. A vida é, e sempre será, soberana. Ela é muito maior do que nós. Vivê-la cada vez mais intensamente e com menos colaterais -- de medicamentos e de energias negativas -- é o que desejo sempre.
Serviço
Lançamento do livro "O Segundo Armário: diário de um jovem soropositivo"
Dia 16 de abril, às 20h30, no Instituto Kreatori (Rua Alice, 209 - Laranjeiras, Rio de Janeiro)
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