quarta-feira, 18 de maio de 2016

Mulher relata falso diagnóstico de HIV em hospital de Camaçari (Bahia), após dar à luz. ‘Na frente de todo mundo, no corredor’, denuncia 'Extra



Infelizmente, não é só na cidade de São Paulo que mulheres sofrem ao dar à luz por causa do preconceito, em relação ao HIV/aids, por parte de profissionais de saúde. Um caso semelhante ao que aconteceu no Hospital Municipal de Campo Limpo, no ano passado, acaba de ser denunciado no Hospital Geral de Camaçari, na Bahia, pelo jornal "Extra". Leia na íntegra:
 A gravidez de Patrícia Albuquerque (nome fictício), de 33 anos, não foi fácil: ela teve zika durante a gestação e passou cerca de sete meses com medo de que a filha nascesse com microcefalia, informa reportagem do jornal carioca 'Extra'. Depois, deu à luz ainda na ambulância, a caminho do hospital, e viu a pequena correr risco de hemorragia quando o cordão umbilical se rompeu. Por sorte, a família chegou Hospital Geral de Camaçari, na Bahia, a tempo, mas foi justamente na unidade de saúde que Patrícia vivenciou os piores momentos de sua vida. Sentada no corredor, ela recebeu da enfermeira, depois de um teste rápido, o diagnóstico de HIV diante de outras pacientes, e viu suas roupas e placenta serem descartados às pressas, com medo de contaminação, antes que pudesse assimilar a história.

Segundo a mãe, a profissional repetiu a informação várias vezes, diante de grupos de pessoas que passavam e, aos poucos, viu se formar um aglomerado de gente  espantada com a notícia se formar em volta de sua maca. Ainda hoje, dois meses desde o trauma sofrido, Patrícia diz que não se recuperou da vergonha que sentiu e das horas de pânico vividas após a falsa notícia, mas, principalmente, do que considera seu maior prejuízo já que, ainda hoje, dois meses depois da falsa notícia, ainda não consegue amamentar seu bebê.
"Eu senti vontade de correr. Não sei para onde, não sei explicar, mas fiquei desesperada. Fiquei com muito medo de que a doença não me permitisse criar as minhas filhas (a mais velha tem 6 anos) e, para completar, senti muita vergonha. A notícia se espalhou pelo hospital, porque a enfermeira contava a todos os curiosos que perguntavam sobre meu choro no corredor. A cara de nojo que as pessoas e até os maqueiros faziam era a pior parte. Quando me tiraram do corredor para o quarto, ninguém queria me tocar. Minha mãe se ofereceu para me levar", conta Patrícia, que foi impedida de amamentar a criança no dia de seu nascimento, já que o vírus pode ser transmitido pelo leite.
De humilhada a celebridade
Mesmo tendo repetido o teste no mesmo dia em que deu entrada no hospital, a boa notícia só chegou no dia seguinte. Às 10h de 17 de março, uma médica informou o resultado de dois outros testes feitos. O “negativo” chegou para Patrícia numa mistura de revolta e alívio e, de repente, ela se viu uma celebridade dentro da unidade de saúde.
"Não entendo o motivo de só terem me tranquilizado no dia seguinte. Não sabem o que passei, pensando em como ia ser conviver com a aids. No tempo em que fiquei no hospital vi que todo mundo sabia da história e vinha falar comigo. As enfermeiras me pediam desculpas, e uma até chorou de vergonha. Nada disso adiantou. Ainda choro todos os dias, lembro da vergonha e fico triste por não poder amamentar minha filha. Acredito até que o leite tenha secado por nervosismo. Sei que preciso de ajuda. Estou abalada", desabafa a mãe, que destaca o trauma de ter que compartilhar o banheiro com outras mulheres durante o pós-parto: "As pessoas ficavam desesperadas achando que iam pegar aids. Foi tão difícil que não conseguia pegar a minha filha no colo, tinha medo", diz.
Patrícia conta que a revolta aumentou quando descobriu, nesta terça-feira (17), que a filha recém-nascida chegou a ser medicada com um coquetel contra a doença. A mãe teve acesso à informação depois de pedir que um amigo médico avaliasse os arquivos que recebeu da unidade de saúde após a alta médica. A família teme os efeitos das substâncias no organismo da menina.
Um médico amigo da família viu os arquivos do hospital e contou para o meu marido sobre a medicação. Foi a gota d´água para mim e para o pai dela, que está arrasado. Ela era muito pequena, indefesa", diz a mãe, que registrou queixa na delegacia local.
Enquanto tenta se recuperar do trauma — o pai de Patrícia, de 60 anos, passou mal ao receber a falsa notícia de que a filha tinha Aids —, a família espera fazer um alerta ao sistema de saúde e tenta evitar que o preconceito afete a vida da filha mais velha na escola:
"Sabemos que o preconceito é grande, especialmente agora, que senti na pele. Espero que não discriminem minha filha por isso. Tenho medo de as pessoas não acreditarem que não tenho a doença",  explica.
O outro lado
Confira a nota da Secretaria de Saúde do Estado:
"Todos os profissionais do Hospital Geral de Camaçari são orientados quanto a conduta adequada com os pacientes. Após o caso relatado pela paciente em questão, as orientações foram reforçadas junto à equipe da unidade. Sobre o caso em questão, foi solicitada a abertura de sindicância para apurar os fatos e tomar as devidas providências."
   
  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

  CNS discute desafios para garantir direito universal à Saúde em tempos de negacionismo, durante debate na UFRGS 14 de fevereiro de 2022 O ...