Representantes do movimento social de luta contra a aids decidiram, nesta quinta-feira (23), durante reunião da Comissão de Aids, que vão acionar o Ministério Público Estadual de São Paulo para que o órgão entre com uma ação civil pública contra a Prefeitura da cidade. O grupo não concorda com a decisão do governo de fechar ou trocar de endereço alguns CTAs (Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/Aids), serviços de saúde destinado às ações de diagnóstico e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, como é o caso do CTA Santo Amaro, na zona sul da capital. O CTA Parque Ipê também foi fechado em fevereiro sem pactuação com a sociedade civil.
No início de fevereiro, a Agência de Notícias da Aids noticiou que este CTA, por ordem da coordenadoria Regional de Saúde Sul, estava de mudança, e que a partir de março, o serviço passaria a atender no Centro de Referência (CR) em DST/Aids de Santo Amaro (leia mais).
Desde que a notícia veio à tona, ativistas, usuários do serviço e trabalhadores estão se mobilizando contra a junção dos dois serviços em um único espaço. Eles alegaram que não houve diálogo por parte da prefeitura antes da decisão. “Não fomos chamados para debater o fechamento do CTA, a resposta brasileira contra a aids sempre foi construída a partir do diálogo entre governo e sociedade civil, essa gestão rompeu os canais democráticos de participação”, pontuou Américo Nunes, presidente do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids).
Segundo Américo, o fechamento dos CTAs na cidade pode compromete o alcance das metas 90-90-90, da ONU, e a chegada da PrEP (profilaxia pré-exposição) no município. “Não podemos aceitar este retrocesso, já soube que a prefeitura está planejando fechar outros CTAs, como o São Miguel Paulista, o São Mateus, o Itaim Paulista, todos na região leste da cidade”, contou. O ativista propôs aos participantes que além da ação pública, participem de um abaixo-assinado contra a medida.
O militante LGBT Helcio Beuclair, do coletivo Arouchianos, acredita que falta humanidade e sensibilidade por parte do governo. “Como explicar o fechamentos destes serviços? O CTA Parque Ipê, por exemplo, não foi realocado para outro espaço. Este é um atentado violento. Temos que denunciar para o Brasil inteiro e acionar órgãos internacionais.”
Além da testagem
Os CTAs, segundo os ativistas, têm papel chave na luta contra a epidemia da aids. Além de realizar testes para doenças sexualmente transmissíveis, como o HIV, sífilis e hepatite B e C, são responsáveis por criar estratégias para orientar a população sobre a importância da prevenção e do sexo seguro.
“Nós, trabalhadores do CTA Santo Amaro, fomos simplesmente comunicados e ficamos surpresos com a mudança. Não houve uma decisão técnica. Soubemos que o prédio seria entregue porque o governo quer conter gastos e que não há dinheiro em caixa para pagar o aluguel”, pontuou Lúcia Gatti, técnica da unidade. Ainda de acordo com Lúcia, os funcionários e os usuários do serviço são contrários à transferência do espaço.
Outro lado
Além de representantes do movimento social, a reunião contou com a participação de integrantes do governo municipal e do Conselho Municipal de Saúde de São Paulo.
Representando a secretaria, a médica Lais Borba Casella, assegurou aos militantes que não é uma política do município acabar com os CTAs e confirmou que a decisão de mudar não foi técnica. “Realocar o serviço pode ter sido uma atitude intempestiva da coordenadoria de saúde local. Vale lembrar que os gestores receberam a missão de economizar 30% do orçamento”, explicou.
A psicóloga Maria Cristina Abbate, coordenadora do Programa Municipal de DST/Aids, disse que não é a favor da junção dos serviços e que a decisão de realocar o CTA Santo Amaro aconteceu quando ainda não estava na gestão. “Reassumi o programa em fevereiro e estamos tentando solucionar o problema. Hoje, há no CR Santo Amaro um prédio no fundo que pode abrigar o CTA.Com isso, vamos garantir que os serviços funcionem de formas independentes. O CTA não é um serviço de assistência.”
Cristina lembrou que uma das diretrizes dos CTAs é alcançar a população antes que a patologia se estabeleça. “Todos, inclusive os administradores locais, devem entender a missão de um CTA. A decisão de mudar o CTA Santo Amaro de endereço foi administrativa”, reafirmou. “Em São Paulo queremos iniciar a PrEP, estamos participando de estudos para entender qual é o melhor caminho para vinculação e retenção do nossos usuários e o CTA é peça chave nisso.”
A médica Lais Casella assegurou não ser possível voltar atrás dessa decisão e retomar o serviço no endereço antigo. “O prédio era alugado e já foi entregue, então vamos trabalhar para minimizar os danos.”
Uma das trabalhadoras do local rebateu imediatamente a fala da doutora. “Há informações que não são verdadeiras, o aluguel do antigo prédio está pago e ainda há na unidade um segurança nosso. Além disso, a dona do espaço contou que não foi procurada pela prefeitura nenhuma vez e que também não recebeu nenhuma proposta para reduzir o valor do aluguel.”
Da Comissão Política do Conselho Municipal de Saúde, Francisco Freitas, lembrou que há diferença entre administrador duro e humanista. “Essa gestão está trabalhando de forma unilateral, sem a participação do controle social.”
Também integrante do conselho, Manoel Costa Filho, completou: “Há uma contradição do governo em dizer que a decisão de mudar os CTA de lugar não é política. Que decisão governamental não é política?”
O ativista José Araújo Lima (foto), coordenador do Mopaids, disse aos representantes do governo que o movimento social não vai abrir mão desta luta. “Sabemos que o papel do CTA não é só fazer testagem. Se não está funcionando ou atingindo a população, temos que fortalecer o serviço.”
Araújo não concordou com o argumento de Cristina e Laís sobre o governo não ter sido avisado pela coordenadoria Sul de Saúde da decisão. “É triste saber que vocês (o governo) são os últimos a saber, isso demonstra que estão sendo desrespeitadas dentro do espaço que ocupam. Parece que são os ‘bobos da corte’”.
Cristina rebateu Araújo: “Persistência na causa não é ser bobo da corte. Nosso papel de gestor também é de defesa da causa. Lá no início da epidemia nossa voz era pequena, mas se não tivéssemos acreditado não teríamos criado o primeiro serviço de assistência em HIV/Aids, em Sapopemba.”
Encaminhamentos
A reunião aconteceu no auditório da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, durou aproximadamente duas horas e meia e no final os participantes decidiram que vão convidar todos os coordenadores regionais de saúde para uma reunião ampliada da comissão de aids, com pauta única: os CTAs. O encontro deve ser agendado para o próximo dia 5 de abril.
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