A população brasileira cresce constantemente, segundo estimativas do IBGE. Em 2015 ela era de 204,9 milhões. Neste ano, são 207,6 milhões. O número de idosos totaliza 23,5 milhões. A proporção de brasileiros com 60 anos ou mais em 2005 era de 9,8 e passou para 14,6 em 2015. Nesse ritmo, também aumenta expressivamente a quantidade de pessoas, com 60 anos ou mais, infectadas pelo vírus HIV.
De acordo com o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, em 2005, foram notificados 1.131 novos casos de aids, nessa faixa etária. Em 2015, subiu para 2.100 casos. As mortes em decorrência da doença passaram de 567 para 1.251, no mesmo período. Ou seja, tanto os novos casos de aids, quanto o número de óbitos seguem crescendo no país.
"O Brasil não trabalha prevenção para a terceira idade", essa é a opinião da advogada Lucila Magno, presidente da Gepaso (Grupo de Educação à Prevenção a Aids de Sorocaba), ONG com atuação no interior paulista. "As poucas vezes que fez campanha, não desenvolveu linguagem adequada para acessar essa população. O idoso pensa que a camisinha é para o jovem, não para ele. Sem contar com o machismo e toda a falta de conhecimento", afirma.
Com as novas tecnologias, a entrada no mercado das drogas de disfunção erétil e o gel lubrificante aumentaram as possibilidades do idoso prolongar e melhorar sua vida sexual. Com isso, existe o crescimento dos riscos de infecções por ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e o HIV.
No ano de 2013, foram registrados 442 novos casos de HIV, nessa população. Em 2015, houve um salto para 998. De 2007 até 2015, o total de novas notificações foi de 3.426, em pessoas com 60 anos ou mais.
Diagnosticada na década de 1980, a ativista Maria Elisa, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP+) observa essa mudança diariamente: "Na fila de atendimento dos consultórios especializados a gente percebe o crescimento de pacientes da terceira idade. Cada vez mais tem novos rostos na sala de espera."
A resistência pelo uso do preservativo existe em todas as idades, segundo a ativista, mas entre os idosos é ainda maior. "Somos uma população que não tem investimento por parte da saúde. Além das novas infecções, existem as pessoas que estão envelhecendo com o vírus ou as que não tiveram acesso ao diagnóstico. Com o viagra, os homens ficam mais vigorosos. Mesmo com todos os tabus, as mulheres tem saído com pessoas mais jovens. Sendo assim, ambos tem mais parceiros e estão em risco de infecções. No entanto, o uso do preservativo não é uma cultura", explica Elisa.
"O HIV é uma infecção que tem 37 anos. Quando essas pessoas iniciaram suas vidas sexuais não se falava de camisinha. O preservativo passou a ser distribuído gratuitamente depois da aids. A maioria das pessoas se relacionavam para casar e viver uma união estável", diz Daiana Carneiro, educadora em prevenção do Projeto Bem-Me-Quer. "Hoje, o perfil mudou e os bailes da terceira idade são importantes meios de encontros", diz a educadora.
Daiana desenvolveu junto a ONG uma campanha de prevenção voltada para populações vulneráveis ao HIV, entre elas, os idosos. O trabalho foi gravado durante um baile que aconteceu no Parque da Água Branca, em São Paulo. Para ver a reação das pessoas, a equipe deixou uma máquina de distribuição de preservativos no local. (Assista abaixo)
"Chupar bala com papel foi uma expressão muito utilizada por eles ao falar do preservativo. Por mais que o tempo passe, algumas coisas não mudam. A vergonha de pegar ou comprar a camisinha continua. Infelizmente, o aumento nos casos de HIV/aids, desmistifica a ideia de que o idoso não tem vida sexual", explica Daiana. Para ela, falta trabalho de prevenção e é preciso um olhar sensível para a sexualidade dos idosos.
Esses bailes mencionados pela educadora são muito famosos em várias regiões do Brasil. Jô Fonseca, da ONG Sonho Nosso, de Nova Guataporanga (SP), conta que a instituição realiza ações de prevenção em dez municípios do interior de São Paulo --de Junqueirópolis até Panorama, na divisa com Mato Grosso do Sul.
"Nesses municípios, o acesso ao transporte não é tão fácil como na capital. Então, tem um ônibus que leva os idosos até os bailes e depois de volta para casa. Lá eles namoram, encontram seus parceiros ou conhecem outras pessoas com quem marcam encontros. De lá, podem namorar, casar ou combinar um sexo casual. O namoro na terceira idade é algo fantástico e constante", afirma Jô.
Mas não são apenas os famosos bailes os lugares em que essa população pode se conhecer, lembra a ativista Lucila. Existem os encontros para os jogos de buraco, carteado, passeios em grupos para ambientes culturais ou turísticos e as redes sociais. "As campanhas não nos atingem, porque, sequer pensam que 'velho' sabe mexer no celular. Mas hoje, temos que fazer praticamente tudo por meio dele. Se chamassem melhor a atenção da terceira idade para aspectos que nos interessam, seriamos incentivados a sair dessa zona de conforto. O poder público tem obrigação de trabalhar nessa mudança. O governo sabe que os casos estão aumentando, mas cadê o trabalho?", questiona Lucila.
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