O Guia de Terminologia foi lançado oficialmente durante o painel de debates “Palavras não são neutras: intervenções para reduzir o estigma da aids no Brasil”. A Diretora do Unaids Brasil, Georgiana Braga-Orillard, abriu o debate com uma apresentação do Guia e seus objetivos. Também participaram do painel os criadores de conteúdo no Youtube Gabriel Estrela (do canal Projeto Boa Sorte) e Marcos Borges (do canal Doutor Maravilha), além do jornalista e editor da Revista Galileu, Nathan Fernandes, autor da reportagem de capa da edição de agosto, sobre o peso do estigma e da discriminação para quem vive com HIV nos dias de hoje.
O objetivo da mesa foi discutir os avanços e desafios no uso linguagem relacionada ao HIV nos mais diversos campos como social, jornalístico, mídias tradicionais e digitais, medicina, ativismo e tantos outros. O debate buscou provocar uma reflexão sobre o momento em que vivemos, em que a consolidação do ‘politicamente correto’ em diferentes esferas se depara com o extremismo, a polaridade dos pensamentos e opiniões e um perceptível aumento da intolerância.
Linguagem não é neutra
“As palavras que escolhemos e a forma como comunicamos nossos pensamentos e opiniões têm um efeito profundo na compreensão das mensagens. A escolha cuidadosa da linguagem, portanto, desempenha um papel importante na sustentação e no fortalecimento da resposta ao HIV, para que ela seja construída sobre uma base livre de estigma e de discriminação.”, explica Georgiana Braga-Orillard, Diretora do Unaids no Brasil.
Expressões como “pessoa vivendo com HIV" estão gradualmente substituindo outros termos, como "vítima de aids", ou termos correlatos. “Termos como ‘vítima da aids’ implicam que o indivíduo é impotente, sem controle sobre sua vida", disse Alistair Craik, que coordena o Guia de Terminologia do Unaids original, elaborado em inglês. "Por isso, é preferível usar ‘pessoas vivendo com HIV’”, acrescentou.
Neste caso, como explica o guia, a expressão “pessoa vivendo com HIV” tem o objetivo de evidenciar o protagonismo que a pessoa HIV-positivo tem diante de sua vida, em busca de saúde, dignidade e plenitude no exercício de seus direitos. O termo atual relega, portanto, ao HIV apenas um papel de coadjuvante nesse processo. Da mesma forma, expressões de conotação bélica, como “luta contra a aids” e “combate à aids” perdem espaço para termos mais inclusivos, mais abrangentes e menos bélicos, como “resposta à aids”.
O HIV deixou de ser visto apenas como uma questão médica. O risco de infecção pelo HIV e o impacto do vírus permeiam questões sociais, incluindo discriminação contra a população LGBT e outras populações muitas vezes marginalizadas e, assim, mais expostas ao risco de infecção pelo vírus.
“É lamentável que as pessoas que vivem com o HIV também sejam, muitas vezes, sujeitas ao estigma e à violência relacionadas a sua sorologia”, explica Georgiana. “Ao longo da última década, a necessidade crítica de fortalecer os direitos humanos como parte de uma resposta efetiva à aids tornou-se cada vez mais clara.”
As diretrizes de terminologia do Unaids têm como objetivo promover o uso de palavras que respeitem e empoderem os indivíduos. Elas também fornecem conselhos aos escritores e jornalistas para evitar erros comuns. Por exemplo, "vírus da AIDS" não deve ser escrito porque é cientificamente errado. "Não há ‘vírus da aids’”, explica o Guia. "Aids, a síndrome de imunodeficiência adquirida, é uma síndrome de infecções oportunistas e doenças que, em última instância, é causada pelo HIV”.
O documento também ressalta um erro comum no uso da expressão “pessoas infectadas com a aids”, uma vez que a aids não é o fator infectante, e sim o vírus, conhecido como HIV. Além disso, o guia explica que, como a palavra ‘HIV’ (do inglês ‘human immunodeficiency virus’) significa em português ‘vírus da imunodeficiência humana’, é incorreto escrever o ‘vírus HIV’ ou ‘vírus do HIV’ por se tratar de uma redundância.
Este breve conjunto de recomendações visa promover uma linguagem sensível ao gênero, não discriminatória, culturalmente apropriada e que promova os direitos humanos universais. O Unaids enfatiza que suas recomendações terminológicas devem ser consideradas um trabalho contínuo, à medida que novas questões e dinâmicas emergem frequentemente.
Você pode acessar o Guia de Terminologia aqui. Estas diretrizes podem ser amplamente copiadas e reproduzidas, contanto que esse uso não seja para fins lucrativos e que a fonte seja sempre citada.
Fonte : Portal Imprensa
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