quarta-feira, 2 de agosto de 2017

GIV recebe exposição gratuita Reflexos Positivos. Fotógrafo busca vencer o preconceito por meio da arte e informação



Observando os estereótipos e preconceitos relacionados às pessoas que vivem com HIV, o fotógrafo Dy Soares criou a exposição Reflexos Positivos. O trabalho, segundo o autor, busca alertar a população de que “hoje as pessoas com HIV não têm mais a cara da epidemia dos anos 80” e muito avanço foi conquistado desde o período. O projeto é baseado na estética do nu artístico com modelos homossexuais, transexuais, heterossexuais, religiosos e soropositivos e negativos ao vírus. A exposição pode ser vista gratuitamente, a partir da próxima segunda-feira (7) até sexta-feira (11), das 14h30 às 20h, no GIV (Grupo de Incentivo à Vida), em São Paulo.

“Ela acontece dentro de uma estrutura de vidro reflexivo. O espelho é para que as pessoas se vejam e assim possam refletir sobre a formação dos estereótipos direcionados aos portadores do vírus. Os mais diversos corpos e pensamentos foram inseridos nesse projeto para mostrar que todos somos vulneráveis à infecção”, explica Soares.
O fotógrafo conta que já presenciou e ouviu muitos relatos de preconceitos sofridos pela população LGBT e soropositiva. Por este motivo, ele desejava fazer um trabalho que apresentasse um aspecto social. “Eu já vi professor discriminar aluna porque ela é homossexual. Eu queria mostrar que nós LGBTs estamos aqui. No entanto, quando você digita homossexual numa pesquisa a primeira coisa que aparece é o HIV. E para o HIV são corpos fragilizados como nos anos 80. Eu quis trabalhar esse olhar”.
Estrutura da exposição/Dy Soares
A campanha Um Cartaz HIV Positivo, realizada pelo GIV e ganhadora de um Leão de Bronze em Cannes (2015), foi uma das inspirações do artista. A frase “Se o preconceito é uma doença, a informação é a cura”, tema desta campanha é central no trabalho de Dy Soares: “Eu me emociono ao falar dessa campanha e sou apaixonado por ela. Assisti no final de 2015 e mexeu comigo. Eu pesquisei mais sobre HIV e acabei com meus preconceitos por causa dela. Depois, eu queria saber o que era o GIV e virou uma relação de amor. Eu usei a frase porque pensei ‘se as pessoas buscassem informação, outras não sofreriam preconceito’”.

Soares espera um dia poder expor em um lugar grande, onde pessoas que não convivem com o HIV possam ter acesso. “Eu queria poder conversar com essas pessoas e tentar vencer esse preconceito. Eu não quero ser visto só como um fotógrafo, mas como quem se importa e quer que mais pessoas se importem também.”
Dy Soares trabalha com fotografia há três anos. A exposição faz parte de um projeto de conclusão de curso. São 38 fotografias de 16 modelos. O trabalho Reflexos Positivos já esteve na ETEC de Carapicuíba (onde fez o curso) e no Espaço Vivarte. Agora segue para o GIV.
Dy Soares, autor da exposição

Serviço

G1: Pacientes com HIV denunciam falta de medicamento na rede pública do DF



Pacientes que vivem com o vírus HIV no Distrito Federal denunciam a falta, há quase dois meses, do antirretroviral lamivudina, um dos medicamentos do coquetel para o tratamento da aids. Ao G1, nesta terça-feira (1º), o Ministério da Saúde, responsável pelo fornecimento do remédio, negou o desabastecimento, mas pontuou que cabe aos estados “estabelecer um fluxo de distribuição”.
A Secretaria de Saúde do DF, reconhece que houve a falta do medicamento, mas afirma que “a situação já está normalizada”. Em nota, a pasta informou que a data prevista para entrega do antirretroviral era até 16 de junho, mas não deixou claro por quanto tempo esteve em falta.
Em contraponto ao que dizem a secretaria e o ministério, em entrevista ao G1, o presidente da ONG Amigos da Vida, Christiano Ramos - que atua no atendimento a pessoas com HIV - afirma que a lamivudina está em falta “há pelo menos dois meses” nos principais centros de referência da capital federal. "Dizem que é problema de logística", afirmou Ramos.
“É a primeira vez que vejo faltar coquetel no DF, isso é grave. É um remédio que não pode faltar, senão volta a ter a carga viral reativada e compromete a situação de saúde das pessoas.”
Um paciente de 35 anos, que prefere não se identificar, também diz que na última semana esteve no centro de referência ao tratamento de aids do Hospital Dia, em Brasília, para buscar o medicamento, mas voltou para casa sem uma previsão concreta de quando receberia.
“Eles não deram explicação e pediram para tentar na próxima semana”.
O assistente administrativo, que faz tratamento há dois anos, diz que sempre recebeu o remédio gratuitamente e, em caso de falta, não tem “a menor condição de pagar pela medicação."
Atualmente no DF, 8,4 mil pessoas fazem tratamento de combate à Aids na rede pública de saúde. A lamivudina faz parte da chamada “terapia antirretroviral de alta potência”, combinada com outros dois medicamentos.
O médico infectologista, José Davi Urdaez, explica que a droga é uma das substâncias mais utilizadas no tratamento por ser “menos tóxica ao organismo” e, que na falta dela, tem como ser substituída por outra, “mas não é o ideal”.
Urdaez alerta, no entanto, que não é recomendável reduzir o coquetel a apenas dois medicamentos, pois na falta de um dos compostos, “o vírus se torna mais resistente”.
HIV no DF
Mais de 12 mil pessoas são portadoras do vírus HIV no Distrito Federal, segundo dados da Secretaria de Saúde. Desse total, 70% recebe tratamento antirretroviral na rede pública de saúde. Ainda segundo os dados da pasta, o levantamento também demonstrou que, entre os anos de 2014 e 2015, os óbitos por AIDS reduziram em 11%. Nos últimos anos foram registrados, em média, 900 novos casos de HIV/aids.
De acordo com o Boletim Epidemiológico de HIV, Aids e outras Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), em 2015, a maior quantidade de casos de HIV estava concentrada na população masculina, em especial, entre homens que fazem sexo com outros homens, inclusive os bissexuais.
No mesmo período, a média de notificação foi de sete ocorrências masculinas para uma feminina. As faixas etárias que mais apresentaram infecção por HIV foram de 20 a 34 anos e de 35 a 49 anos. Entre as regiões da capital que mais registraram novos casos, destacam-se Asa Norte, Águas Claras, Lago Norte, Taguatinga e Varjão.
Tratamento
Após o diagnóstico positivo de presença do vírus HIV, ao paciente é ofertado o tratamento com a ingestão de medicamentos antirretrovirais, fornecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No Distrito Federal, sete unidades de saúde atendem pacientes que convivem com a doença:
Hospital Dia (Asa Sul)
Farmácia Escola Hospital Universitário de Brasília (Asa Norte)
Ambulatório de Ceilândia (Ceilândia)
Unidade Básica de Saúde nº 5 (Gama)
Unidade Básica de Saúde nº 1 (Planaltina)
Unidade Básica de Saúde nº 1 (Sobradinho)
Policlínica (Taguatinga)

terça-feira, 25 de julho de 2017

Antirretrovirais: Ativistas de diferentes Estados sinalizam falta e estoque crítico de alguns medicamentos. Departamento de Aids nega desabastecimento e garante unir esforços para regularizar a situação



Nas últimas semanas, ativistas de alguns Estados brasileiros sinalizaram, via redes sociais, estoque crítico e até falta de alguns antirretrovirais, remédios que compõe o tratamento das pessoas que vivem com HIV/aids. Todos os gestores estaduais ouvidos pela Agência de Notícias da Aids relataram remanejamento de estoque entre unidades de saúde e entrega fracionada no último mês. O Departamento de IST, HIV, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde afirma que houve problemas diversos com 5 dos 37 medicamentos distribuídos no País, mas está unindo esforços para solucionar cada um deles.
Na Bahia, embora o Estado esteja trabalhando com remanejamento entre ambulatórios Daniela Vitor, diretora da assistência farmacêutica da Secretaria Estadual da Saúde, disse que não tem mais estoque do abacavir solução oral. O medicamento é usado para tratar crianças soropositivas. “Nós tivemos um período de falta de diversos medicamentos. Depois de muitas cobranças, regularizou. Estamos com estoque parcial do zidovudina (solução oral infantil), do lamivudina e do 3 em 1 (efavirenz+ tenofovir + lamivudina). Mas do abacavir, zeramos. Se uma mãe precisar, não temos”, afirmou.
Daniela explicou que os profissionais do Estado estão fazendo “uma força tarefa” para entregar o mais rápido possível todos os remédios recebidos.
No Brasil, os antirretrovirais são comprados pelo Ministério da Saúde, distribuídos aos Estados e encaminhados aos Municípios. Assim  chegam  aos usuários via SUS (Sistema Único de Saúde). Os estoques são acompanhados pelo Siclom (Sistema de Controle Logístico de Medicamentos). Por meio desse sistema, os gestores fazem pedidos e conseguem remanejar medicamentos quando preciso.
Em Mato Grosso, foi necessário trabalhar em estratégia de emergência. A coordenadora da Vigilância Epidemiológica do Estado, Alessandra Moraes, contou que costuma receber um quantitativo suficiente para três meses de estoque e na última remessa recebeu para um mês: “Neste momento, conseguimos manter a distribuição. Mas ainda está difícil. Como recebemos menos, entregamos menos. Tem município que está a 1.200 quilômetros da capital. Se ele nos manda um alerta, mesmo que façamos tudo imediatamente não atendemos tão rápido. E o paciente terá que voltar mais vezes ao serviço.”
No entanto, segundo a coordenadora, existem unidades que mesmo com estoque para um mês, fracionam os remédios. O motivo? Receio de faltar. “Um usuário me relatou que emprestou o medicamento para um colega recém-diagnosticado. Eles fazem uso do mesmo esquema. Pra mim, é uma situação complexa e difícil de lidar.”
No Rio Grande do Sul, a situação foi outra: problemas de logística e avaria de algumas embalagens. “Fazia 5 anos que não tínhamos problemas, no momento que aconteceu foi um atrás do outro. Quando soubemos que os ambulatórios estavam fracionando a entrega para os usuários, procuramos ajustar os ponteiros. Aqui, sempre tem estoque para quatro meses. Como recebemos para um mês, gerou receio”, informou Elson Farias, diretor do Departamento de Ações de Saúde.
Em São Paulo, a coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids, Maria Clara afirmou que não há falta, mas os estoques estão em estado crítico: “Estamos entregando para um mês. O que acontece é que sempre fornecemos para três meses.  Ficamos em contato constante com as regionais para o remanejando aonde for necessário. Não é uma situação confortável. São cerca de 10 medicamentos em estoque crítico, mas o MS tem essa relação e garantiu o abastecimento nos próximos dias.”
No caso de Santa Catarina, Dulce Quevedo, gerente estadual de DST Aids e Hepatites Virais, contou que chegou a ter fracionamento semanal do abacavir (solução oral). “Os municípios tinham poucos frascos e por isso fracionaram. Enviamos notas técnicas para não fracionar, mas eu entendo a decisão do gestor que está na ponta. É uma preocupação com o usuário. Agora, estamos com estoque critico do kaletra. Mas já entramos em contato com o MS para eles avaliarem o que podemos fazer.”
A situação do Amazonas é semelhante à de outros Estados. As Unidades Dispensadoras de Medicamentos (UDM) recebiam o quantitativo suficiente para estoque de pelo menos três meses. De acordo com Maria das Graças, responsável pela logística do Estado, o fato de ter recebido para um mês levou ao receio de faltar e consequentemente ao fracionamento.  “Estamos nos esforçando para entregar o suficiente para 30 dias de tratamento. Não temos estoque para dispensar mais do que isso. Se não tivéssemos fracionado, teria faltado.”
Questionada sobre as ações pensadas para os pacientes que não moram próximo das unidades que dispensam os medicamentos, Maria das Graças explicou: “Quando o usuário mora perto, na situação que estamos, temos dispensado o suficiente para um mês. Já os que estão longe, fazemos o possível para entregar para três meses. Têm pessoas que viajam até a capital. Estamos nos esforçamos e contamos com a garantia da novas grades que o Ministério vai enviar”.
O cenário não é o mesmo no Rio Grande do Norte, segundo relatos do coordenado estadual de DST Aids, Sergio Cabral. “Aqui a gente tem feito milagre para que o usuário não fique sem. Chegou a faltar o 3 em 1, pois pedimos 160 mil e recebemos 60 mil. Toda medicação que o Ministério nos envia não está de acordo com o nosso pedido. Nós atendemos moradores da Paraíba e Ceará que preferem se tratar aqui por conta do sigilo. Precisamos do apoio do Ministério”.
Sergio disse ainda que as combinações de medicamentos que não existem  em estoque têm sido trocadas. “Quando o usuário chega ao serviço e não tem o antirretroviral que ele usa, orientamos que um médico o atenda e passe uma terapia que tenha em estoque. Estamos preocupados com o paciente. No momento, isso é o melhor que podemos oferecer.”
Departamento de IST, HIV, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde garante que não existe desabastecimento
“Não tem desabastecimento. Infelizmente, tivemos problemas com cinco itens pelas mais diversas situações. Não devemos gerar insegurança no usuário, pois nos preocupamos com a adesão e qualidade do tratamento. O Departamento está fazendo todo o esforço possível para regularizar a situação. O medicamento vai chegar”, dra. Adele Benzaken, diretora do Departamento de IST, HIV, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.
A diretora explicou que estoque crítico equivale a um mês de reserva. Disse ainda que a área técnica enfrentou problemas de logística, avaria e fornecedor em um único mês. 
“O orçamento de compras de medicamento é garantido por lei desde o inicio da epidemia do HIV. Nós, inclusive, já estamos em discussão sobre o do próximo ano. Colocando uma perspectiva de aumento nesse orçamento para podermos fazer a troca do efavirenz para o dolutegravir. Então, não existe compra fragmentada ou falta de orçamento. Estoque crítico, não quer dizer que vai zerar ou que as UDM têm que fracionar a entrega dos antirretrovirais”, enfatizou dra. Adele.
O medicamento 3 em 1, citado nesta matéria pela maioria dos gestores também foi mencionado pela diretora: “Importamos esse medicamento via OPAS [Organização Pan-Americana de Saúde]. Tivemos várias questões com ele, inclusive avaria. Por este motivo, foi necessário ir ao estoque e avaliar frasco por frasco. Em outra carga, desapareceram 20 volumes. Quando isso acontece, não podemos receber a carga toda. É uma regra.Ou seja, foram dois problemas, um depois do outroantes de entrar no país”, lamentou a diretora.
Na segunda semana de julho (12), o Departamento enviou aos coordenadores responsáveis pela logística dos antirretrovirais uma lista com a data de chegada dos cinco medicamentos que não foram distribuídos de acordo com a programação. São eles: zidovudina solução oral, zidovudina 300mg + lamivudina 150mg, ritonavir solução oral, tenofovir 300mg + lamivudina 300mg + efavirenz 600mg (3 em 1), abacavir solução oral.
Em relação aos medicamentos específicos, o Ministério da Saúde reafirmou que não há falta de remédios para aids em São Paulo e em nenhum outro estado do país. “Temos garantido remessas regulares de forma a manter o abastecimento de pelo menos um mês da demanda total solicitada pelo Estado. ”
Confira a situação de cada medicamento segundo o Ministério da Saúde
- Ritonavir 100mg: maioria dos estados recebeu na semana passada o quantitativo de medicamentos para, no mínimo, um mês e meio de cobertura. São Paulo (estado e município), Rio de Janeiro (só município), RS, MG e PR receberam nesta segunda-feira (24), os medicamentos;
- Zidovudina solução oral: os estados receberão nesta semana quantitativo de medicamentos para um mês e meio de cobertura;
- Zidovudina 300mg + lamivudina 150mg: os estados de AL, AM, DF, PA, SP, TO, MG, MS, RO, receberão nesta semana quantitativo de medicamentos para completar a cobertura de agosto e parte de setembro. Os demais estados receberão até o final do mês medicamentos para a cobertura de agosto e parte de setembro;
- Ritonavir solução oral: os pedidos dos 13 estados que utilizam este medicamento foram enviados na semana passada quantitativo de medicamentos para um mês e meio de cobertura;
- Tenofovir 300mg + lamivudina 300mg + efavirenz 600mg (3 em 1): até o final de julho todos os estados receberão as novas remessas do medicamento com quantitativo para mais de 2 meses de consumo;
- Abacavir solução oral: até final de julho, todos os estados receberão quantitativo para atender dois meses de consumo;
- Lopinar/ritonavir (kaletra): Conforme nota informativa 059/2017 emitida pelo Departamento de Aids no início de julho, será substituído gradualmente por outros medicamentos com menor toxidade e mais praticidade no uso para o paciente.
Dados de HIV no país
De acordo com o Boletim Epidemiológico de HIV, publicado em dezembro de 2016, 827 mil pessoas vivem com HIV/aids no Brasil. Destas 715 mil já foram diagnosticadas e 455 mil pessoas estão em tratamento com antirretrovirais. 410 mil estão com carga viral indetectável. A carga viral indetectável é um dos sucessos obtidos quando o tratamento é feito corretamente, pois ela auxilia no aumento da qualidade de vida da pessoa vivendo com HIV e reduz as chances de transmissão do vírus.
Um relatório divulgado pelo Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), na última quinta-feira (20), apontou que 49% das novas infecções latino-americanas por HIV afetam brasileiros. O segundo lugar é do México, com  13%. No Brasil, o número de mortes por aids ficou estável em 14 mil vítimas por ano, entre 2010 e 2016.
Dica de entrevista
Ministério da Saúde – Assessoria de Imprensa

IAS 2017: Com participação brasileira, saúde trans é debatida na 9ª Conferência Internacional em Ciência do HIV



A saúde das pessoas trans foi destaque na 9ª Conferência Internacional em Ciência do HIV, em Paris, nesta segunda (24).  A mesa coordenada pela farmacêutica Alícia Krüger, do Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, em conjunto com a tailandesa Nittaya Phanuphak, chefe do Departamento de Prevenção da TRC-ARC (Centro de Pesquisa da Aids da Cruz Vermelha da Tailândia) discutiu a necessidade da mudança na referência médica para pessoas trans: da saúde mental para a saúde sexual.
Gail Knudson, presidente da Associação Mundial de Profissionais em Saúde Transgênero (WPATH), apresentou as articulações da entidade visando superar a visão médica, expressa em classificações oficiais, de que a transexualidade é uma doença. Segundo ela, a 5ª edição da publicação que é referência para diagnóstico da psiquiatria americana, o Manual Diagnóstico e Terapêutico (DSM), inclui a condição sob o termo disforia de gênero.
Outra lista amplamente utilizada é a Classificação Internacional de Doenças (CID), da Organização Mundial de Saúde, na qual a transexualidade também consta como um problema de saúde mental: transtorno de identidade de gênero. Segundo Knudson, a WPATH contribuiu para a 11ª edição da CID. "A nova versão está em consulta pública. A ideia é que se passe a usar o termo incongruência de gênero e que passe do capítulo de saúde mental para o de saúde sexual", declarou. Para ela, a expectativa é que a próxima edição do DSM também represente um avanço e não inclua mais a disforia de gênero.
Erin Wilson, do Departamento de Saúde Pública de São Francisco, contou que mesmo numa cidade onde há cinco clínicas de saúde trans, os resultados de saúde dessa população deixam a desejar.  "A questão é mais profunda. São barreiras estruturais como falta de acesso, transfobia, racismo e uma relação traumática com os serviços de saúde", pontuou.
Wilson ressaltou que é importante oferecer mais do que serviços clínicos e citou o exemplo de assessoria legal para resolução de conflitos que, em sua maior parte, são da esfera cível: "Isso contribui para que a pessoa tenha mais disponibilidade para se dedicar à saúde."
O pesquisador Asa Radix palestrou sobre os benefícios do acompanhamento clínico afirmativo de gênero. "Medidas como o tratamento hormonal melhoram a qualidade de vida e reduzem o estresse, além de impactar positivamente a adesão a outros tipos de acompanhamento, como o prevenção ou tratamento de HIV", afirmou.
Para a pesquisadora Tonia Poteat, existem lacunas importantes em pesquisa de saúde de pessoas trans. Ela citou uma rede de pesquisas que acompanha pessoas vivendo com HIV, em que não havia dados sobre a identidade de gênero. "A informação simplesmente não era coletada, o que impede a geração de conhecimento. Entramos em contato com os pesquisadores para que incluíssem dois dados: sexo definido ao nascimento e identidade de gênero".
Beatriz Grijnztein, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio, estava na plateia e também relatou dificuldades com dados. "Estamos fazendo um levantamento das pessoas trans atendidas em nosso serviço nas últimas décadas, mas tem sido difícil recuperar a informação da identidade de gênero dos usuários", lamentou.
Ao final, Gail anunciou o primeiro Congresso Brasileiro de Saúde Trans, que será realizado em São Paulo no mês de novembro. Maria Amélia Veras, pesquisadora da Santa Casa de São Paulo e uma das organizadoras, comentou a partir da plateia: "O congresso está sendo organizado por profissionais de saúde, pesquisadores e ativistas trans, que estão incluídos em todas as etapas do processo".
Alícia Krüger encerrou a mesa alertando: "Nós, pessoas trans, temos dificuldades de acesso a tratamento hormonal no Brasil. Isso vale especialmente para os homens trans, já que os hormônios masculinos só podem ser comprados com prescrição médica".
Durante a conferência também foram apresentados trabalhos em profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV em pessoas trans. Inês Dourado, da Universidade Federal da Bahia, demonstrou alta aceitabilidade da PrEP por mulheres trans e travestis em Salvador, e  Grijnstein apresentou resultados do estudo PrEP Brasil, mostrando que os usuários de PrEP tomaram a medicação corretamente e permaneceram no estudo até o final.

Carué Contreiras*, especial para Agência de Noticias da Aids, de Paris 

IAS 2017: Estudo aponta resultados 'encorajadores' de vacina experimental contra HIV



Um estudo em fase preliminar de uma vacina contra o HIV produziu resultados "encorajadores", enquanto as pesquisas realizadas até a data não permitiram o desenvolvimento de uma vacina eficaz para proteger as pessoas contra este vírus.
Testado em 393 voluntários em cinco países (Estados Unidos, Ruanda, Uganda, África do Sul e Tailândia), este protótipo provocou uma resposta imune (produção de anticorpos) em 100% dos participantes, de acordo com o estudo apresentado nesta segunda-feira (24) na Conferência Internacional de Pesquisa sobre a aids, em Paris.
"Estes dados promissores, combinados aos avanços de outros pesquisadores na área, permitem que sejamos novamente otimistas sobre a possibilidade de desenvolver uma vacina contra o HIV", estimou o Dr. Dan Barouch, membro da equipe de pesquisa, durante coletiva. De acordo com especialistas, uma vacina seria a melhor maneira de acabar com uma epidemia que infectou 76 milhões de pessoas e causou 35 milhões de mortes desde seu surgimento no início dos anos 1980.
Apesar dos meios disponíveis de prevenção, 1,8 milhão de novas infecções foram registradas em 2016, de acordo com o Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids). "Mas até a data, apenas quatro projetos de vacinas alcançaram o estágio de teste de sua eficácia clínica", lembrou Dan Barouch, os demais foram abandonados em fases iniciais por causa de sua falta de eficácia.
Esta vacina experimental, de "duplo gatilho", consiste primeiro em despertar o sistema imunológico com um vírus da gripe comum, antes de dopá-lo com uma proteína encontrada no envelope do HIV, provocando uma reação mais forte do corpo.
Em uma fase anterior em macacos, cujos resultados foram publicados há dois anos, esta estratégia tinha ajudado a prevenir a infecção em dois terços dos primatas, lembrou Dan Barouch, virologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard. "Claro, não sabemos ainda se esta vacina vai proteger os seres humanos. Mas estes dados justificam a realização de um estudo de eficácia em larga escala", disse ele.
Após uma nova avaliação, a fase seguinte dos testes em pacientes apresentando risco elevado de infecção por HIV, poderia iniciar "no final de 2017 ou início de 2018", em países do sul da África, indicou em um comunicado o laboratório Janssen (grupo Johnson and Johnson), que desenvolve a vacina experimental.
Acertar a vacina "será muito difícil", mas um sucesso "mudaria o cenário", explicou à AFP Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID), um órgão público americano. "Mesmo se obtivermos uma eficácia de 50% a 60%, (...) já veríamos um impacto importante sobre a pandemia", acredita.

domingo, 23 de julho de 2017

LGBTs privados de liberdade: um olhar sobre o cárcere



“Se aqui fora existe preconceito, lá dentro é a treva de preconceito. Vi meninas se prostituírem por causa de um sabonete, para escovar os dentes. A saúde é totalmente precária, se você está com alguma coisa, vai morrer lá dentro”, relatou a trans Verônica Bolina durante o debate “Sistema Penitenciários e a População LGBT”, realizado em São Paulo no fim de junho.
Verônica passou dois anos na prisão após uma condenação por tentativa de homicídio e agressão em 2015. Quando foi detida, sofreu humilhação e foi torturada por policiais no Centro de Detenção Provisória de Pinheiros, em São Paulo. Foi quando se tornou conhecida, após fotos e vídeos da agressão viralizarem nas redes sociais.
Assinada por Beatriz Drague Ramos, a revista "Carta Capital" publicou uma reportagem especial a respeito da vulnerabilidade e opressões sofridas pela população LGBT no sistema prisional.
O Brasil conta hoje com mais de 607 mil pessoas encarceradas, de acordo com os últimos dados do Ministério da Justiça, de 2014. Atualmente, a taxa de superlotação do sistema penitenciário ostenta um índice epidêmico de 166%, segundo dados do último Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, de 2014.
Das 1.423 unidades prisionais, apenas 100 (15%) possuem alas destinadas ao público LGBT. A escassez de dados estatísticos sobre esta parcela da população prisional são um indício da invisibilidade sofrida por eles dentro e fora das cadeias.

IAS 2017: Cientistas alertam para cortes nas pesquisas sobre HIV



Paris sedia a partir deste domingo (23), até quarta-feira (26), a 9° Conferência Internacional sobre a Pesquisa do HIV (9th IAS Conference on HIV Science --IAS 2017). O Congresso reúne os maiores especialistas no mundo sobre o vírus HIV e expõe os avanços científicos na luta contra a aids. O encontro começa sob a ameaça de cortes nos financiamentos das pesquisas, anunciado pelos EUA.
Os participantes publicaram, antes mesmo da abertura da conferência, uma carta criticando o possível corte do governo americano no financiamento das pesquisas contra o HIV, anunciado pelo presidente Donald Trump.
Chamada de "Declaração de Paris", o texto não cita diretamente Trump, mas alerta que dificilmente o vírus será vencido "sem investimentos perenes". "Podemos perder vidas inutilmente", declarou a presidente da International Aids Society, Linda-Gail Bekker, que co-organiza a conferência com a Agência Francesa de Desenvolvimento Sobre a Aids.
Os Estados Unidos são, historicamente, o país que investe mais recursos na luta contra o vírus da aids, contribuindo com dois terços do financiamento internacional. No ano passado, o governo americano investiu mais de US$ 4,9 bilhões na pesquisa contra a doença. O Reino Unido e a França chegam respectivamente em segundo e terceiro lugar, com US$ 645,6 milhões e US$242,4 milhões.
Novas infecções
O presidente americano propõe a redução de cerca de US$ 1 bilhão no orçamento de 2018, que ainda será votado pelo Congresso. Caso as medidas sejam aprovadas, mais de 830.000 pacientes devem perder o acesso aos retrovirais, medicamentos que impedem o desenvolvimento do vírus e novas infecções. A previsão é de que 200.000 novas pessoas possam ser infectadas com a medida.
Graças à pesquisa e aos novos tratamentos, desde 2005 o número de mortos caiu 50%, chegando a 1 milhão em 2016, segundo a Onusida, o programa da ONU que atua no combate so HIV. No ano passado, 36,7 milhões de pessoas viviam com o vírus no mundo e metade tinha acesso ao tratamento.
Clique aqui para acessar o site oficial do evento

  CNS discute desafios para garantir direito universal à Saúde em tempos de negacionismo, durante debate na UFRGS 14 de fevereiro de 2022 O ...